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    LUTA POLÍTICA E TRANSIÇÃO CIVILIZATÓRIA

    Edir VeigaEdir Veiga29 de maio de 2022
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    LUTA POLÍTICA E TRANSIÇÃO CIVILIZATÓRIA
    Foto: Reprodução

    Normalmente acompanhamos as análises que se processam frente à momentos políticos conflituosos e percebemos os alcances das análises políticas e sociológicas sobre determinados períodos históricos. As análises não ultrapassam o conjunturalismo dos conflitos entre os atores políticos no contexto de variáveis nacionais e internacionais, onde se incluem os movimentos das economias e o confronto entre os países na luta por zonas de influências.

    Neste início do século XXI, observamos alguns acontecimentos, em escala planetária que sugerem uma convergência de situações, como: a luta pelo reconhecimento é o movimento mais forte das sociedades civis ocidentais, neste movimento emergem novas leis que garantem direitos a pequenos e grandes grupos invisíveis ou com pouca visibilidade jurídica, social e baixa inserção no mundo econômico e do trabalho como: mulheres, LGBT’s, Indígenas, negros, imigrantes, etc.

    Este momento, que parece comum em países tanto da periferia como do centro do capitalismo vem produzindo consequências visíveis no mundo político, a exemplo da emergência de uma ultradireita que vem crescendo nestes países apoiada em uma plataforma que pretende abortar este mundo que quer emergir no curso desta luta vigorosa pelo reconhecimento social, político, econômico, étnico, de orientação sexual.

    Enfim, a extrema direita quer construir uma plataforma contra a emergência da sociedade pluralista, tolerante, democrática e inclusiva. A extrema direita ao perceber que este movimento pluralista e de conteúdo tolerante em escala universal, oferece como programa político à população assustada: o velho mundo das famílias bíblicas heterossexuais, da mulher submissa ao marido, da mulher proibida de exercer o trabalho remunerado, do pobre vivendo de migalhas das classes A e B, do trabalhador sem proteção trabalhista e social, dos LGBT’s vivendo massacrados pelo preconceito.

    Na verdade, a extrema direita “pega carona” neste “espanto” que vivem nossos pais e avós com a erupção de um mundo social tolerante e diverso e transforma em plataforma política e eleitoral um programa de retorno à velha sociedade que habitou o ocidente entre os séculos XIX e XX. Em outras palavras, esta plataforma conservadora produz até 60% de votos e opiniões nesta sociedade em que vivemos. Afinal as pessoas acima de 40 anos, ainda contam com pelo menos 30% de habitantes e influencia outras 30%. Que são seus filhos e netos. Bolsonaro só não tem maioria política e social neste momento, porque cometeu erros estratégicos gravíssimos.

    Mas já assistimos historicamente estes mesmos fenômenos em sociedade recentes, há pelo menos 3000 anos que nos antecederam, quando aconteceram grandes transformações históricas, mediadas por mega invasões ou grandes revoluções sociais, como a que ocorreu durante  a queda do Império Romano, na transição  da idade medieval para o mundo moderno e, a que vem se apresentando neste  momento em todo o mundo ocidental.

    Em síntese, os mega sinais que se apresentam e que parecem acontecer aos mesmo tempo em todo o mundo ocidental indicam que vivemos uma enorme transição civilizatória, que não depende de centros de comandos organizados, mas que surgem, se expandem e vão se generalizando, independe de direcionando racional, coordenado e centralizado.

    No mundo antigo, os sinais de corrosão da civilização romana e seus mecanismos de organização política, econômica  e social começaram a dar sinais de esgotamento com as rebeliões das colônias conquistadas durante Roma Republicana. A emergência do Império Romano, que duraria mais 500 anos, significou a resistência da velha civilização aos movimentos de emancipação e soberania dos povos conquistados ou isolados por rígidas fronteiras.

    Esta duradoura transição do mundo antigo hierárquico, patriarcal e escravocrata seria derrubado pelo grito por liberdades das populações conquistadas e dos povos germânicos que habitavam e eram espoliados no oriente. Esta nova civilização que romperia as muralhas romanas, destruiria esta civilização milenar, traria ao mundo ocidental uma nova cultura baseada na tolerância, na equidade, na horizontalidade das relações políticas e que, fusionada com a cultura e valores ocidentais, plasmaria em dez séculos a emergência da Europa, como síntese da fusão entre os valores e modos de vida cristão, romano e germânico.

    Este novo mundo foi mediado pela única instituição que sobreviveu ao mundo antigo, aqui no ocidente, que foi a igreja católica. Nos primeiros cinco séculos pós mundo romano, vivemos o período conhecido como idade das trevas, pois o totalitarismo dos governos medievais de conteúdo teocrático foi total. Todos os aspectos da vida social só poderiam ser analisados obedecendo os manuais da igreja católica.

    Neste contexto de extrema opressão, começaram os movimentos que viriam a questionar a civilização medieval baseada nos valores de uma teocracia monolítica, e este movimento vai começar dentro dos próprios mosteiros, veja a obra de Umberto Eco, Em Nome da Rosa. Somente a igreja herdou e dominava técnicas usadas no mundo antigo e que foram perdidas como: medicina baseada em ervas, domínio do tratamento dos dejetos humanos, engenharia de construções, administração pública e privada. Como tal, as comunidades medievais que foram formando as cidades medievais dependiam, em tudo da igreja católica.

    A partir do século IX, tudo começa a mudar, os papiros antigos, com informações sobre as técnicas de saneamento, armazenamento de água, tratamentos dos dejetos humanos, informações de medicina, engenharia e administração começaram a chegar no ocidente, advindos do Império Romano do Oriente, mais notadamente de Constantinopla, que sobreviveria até o século XV.

    A partir do século X começa a terminar o monopólio do conhecimento da igreja sobre a ciência e tecnologia antiga, antes, plenamente dominada pela igreja católica, durante os primeiros cinco séculos da idade medieval.  Neste período vivíamos a sociedade dos três Estados: Clero, Nobreza e Povo. Notadamente a emergente burguesia mercantil, fazia parte do terceiro Estado.

    No curso dos próximos cinco séculos, as informações foram pouco a pouco sendo socializadas. Os habitantes das cidades medievais passaram a conquistar autonomia progressiva sobre as gestões das cidades medievais. Movimentos contra o domínio político absoluto da igreja e dos senhores feudais começaram a emergir.

    Marx descreve as revoltas camponesas do século XVI. Uma longa transição civilizatória começa e emergir e que duraria entre os séculos XIII até o século XVII, sendo as revoluções Inglesa, Americana e Francesa o corolário do romper de uma nova sociedade baseada na luta pela igualdade, fraternidade e liberdade, e que se expandiria entre os séculos XVII até o século XX. AS revoluções liberais burguesas e socialistas são parte deste processo de mudança de uma civilização ultrapassada para outra emergente.

    Quando lemos o livro de Edmundo Burke: “Revolução em França”, vemos um conservador apavorado com a emergência do “povo pobre” na arena política. Burke oferece aos conservadores de então as instituições que consagravam a monarquia constitucional e sua hierarquia social, desde que os pobres estivessem banidos da política e na base da pirâmide social.

    Lemos também Alexis de Tocqueville em “A Democracia na América”, demonstrar enorme preocupação com a destruição da aristocracia, pois, esta era, na Inglaterra o filtro democrático, que vetaria a aliança do governante com o povo, impedindo o advento do despotismo das massas. No fundo, estes intelectuais, tinham muitas dúvidas sobre a emergência de uma sociedade igualitarista baseada na democracia, porque o povo viveria de pão e circo e como tal, uma presa fácil para os populistas de plantão.

    Mas a luta pela igualdade que emergiu na bandeira popular de luta contra o antigo regime, no curso da Revolução Francesa, jamais seria contida, apesar de derrotas ocasionais imposta pelos burgueses, que viraram os novos donos do Poder. As lutas populares, camponesas e operárias pela igualdade atravessaram todo o século XVIII até os dias de hoje.

    Nesta fase o proletariado e o povo inscreveram novos direitos constitucionais em todo o mundo ocidental e chegaram aos governos na Rússia, China e outros países. Foram conquistados no ocidente: o sufrágio universal, os direitos trabalhistas, direitos sociais amplos. Claro, estes direitos variam de país para país, dependendo da história de lutas e sucessos dos movimentos operários, camponeses e populares.

    Mas, em todos estes momentos de amplas transições civilizatórios algumas bandeiras, em escala planetária foram negligenciadas pelos movimentos das classes subalternas, dentre elas, podemos citar: os direitos das mulheres, os direitos das crianças e adolescentes, os direitos de LGBT’s, o combate ao racismo e a todos os tipos de discriminação.

    Os governantes, todos eles, de direita ou de esquerda, republicanos ou monarquistas, nunca lutaram para construir uma cultura, como política de Estado, que forjasse uma sociedade tolerante, diversa, que combata radicalmente qualquer tipo de discriminação.

    Ou seja, nas sociedades liberais ou socialistas, os valores patriarcais, machistas, sexistas, LGBT’sfóbicos permaneceram mais ou menos intactos. Uma grande parcela da sociedade permaneceu invisível, sob o ponto de vista social, político e jurídicO.

    Eis, que em finais do século XX e no século XXI, emergem, como uma força nunca vista os movimentos pelo reconhecimento, em todo o mundo ocidental, de forma autônoma e vigorosa e buscando apoio de todas as organizações sociais, sejam elas políticas, sociais, trabalhistas, Institucionais, empresariais ou midiáticas.

    Parece cristalino que estamos diante de um novo Espírito do Tempo, que emerge como como um super furacão que atinge todos os setores da sociedade. Este espírito do tempo exige a adesão de cada família pela inclusão social, econômica, política e jurídica de todos os grupos sociais discriminados ao longo dos últimos séculos. A síntese maior deste espírito do tempo, é que em 99% das famílias ocidentais temos a presença de pessoas LGBT’s, forçando a adesão à tolerância, diversidade e inclusão social.

    Oportunistas como os da extrema direita, dizem que este mundo que luta contra a intolerância e a discriminação foi criado pela esquerda comunista. E com base neste discurso excludente constroem uma plataforma política e social baseada no: patriarcalismo, machismo, sexismo, teologismo cínico, família bíblica, etc.

    Por certo, esta plataforma ainda enganará as famílias que estão impressionadas com a emergência de uma nova geração, hoje com até 30 anos que vivem, sem vacilar sua vida em plenitude, mesmo que sofram ataques legtfóbicos, sejam feridos e mortos, mulheres que no dia a dia são mortas e  traumatizadas por maridos violentos, imigrantes sendo hostilizados pela xenofobia, negros humilhados por causa da cor de sua pele, e pobres sendo desprezados por parte de uma classe média preconceituosa e que vem perdendo condições de vida.

    Mas não tenhamos dúvidas, vivemos um novo espírito de tempo que irrompe com muito vigor no século XXI. Por certo, teremos muitas vitórias e derrotas políticas, mas esta transição civilizatória é global, geral e transversaliza todos as classes sociais, todas as ideologias e todas as crenças subjetivas. A cada década que atravessamos os defensores dos velhos valores serão enfranquecidos pelo irresistível Espírito do Tempo tolerante, diverso e inclusivo.

    Esta mudança, por certo somente será dominante e hegemônica no curso dos próximos dois séculos. Portanto, a luta ético, moral e cultural está na ordem do dia, e as pessoas, grupos, partidos e progressistas devem se capacitar para esta luta política e ideológica, moral e cultural que se apresentará cada vez mais vigorosa nos próximos anos e décadas.

    Os conservadores buscarão dar golpes de Estado, insurreições e cometerão barbárie para impedir a emergência deste novo mundo que está em curso, e caso não venhamos a nos organizar para estes momentos de confrontos, muitos países ficarão aprisionados por um passado conservador a dominar em cada país onde a sociedade civil ficar paralisada.

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    Edir Veiga
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    Professor e pesquisador em ciência política focado em competição eleitoral, relações executivo legislativo, decisão do voto, reforma política. Sou MSc e Dr. pós-graduado pela Universidade Cândido Mendes, através do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro-IUPERJ.

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