Transcrições revelam cooperação de inteligência entre Budapeste e Teerã logo após explosões de pagers em 2024; movimento gera contradições na política externa de Viktor Orbán.
O governo da Hungria, sob o comando do primeiro-ministro Viktor Orbán, ofereceu assistência estratégica ao Irã imediatamente após o ataque israelense que destruiu milhares de pagers do Hezbollah em setembro de 2024. Segundo informações reveladas pelo Washington Post, o ministro das Relações Exteriores húngaro, Peter Szijjarto, garantiu ao seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, que os serviços de inteligência de Budapeste compartilhariam todos os documentos disponíveis sobre o caso.
A revelação da transcrição ocorre em um momento de extrema ambiguidade diplomática para a Hungria. Embora tenha negado envolvimento direto na fabricação dos dispositivos e mantenha um discurso público de apoio a Israel — chegando a anunciar a saída do país do Tribunal Penal Internacional (TPI) em solidariedade a Benjamin Netanyahu —, o governo de Orbán estreita laços com o principal patrocinador do Hezbollah no Oriente Médio.
Essa aproximação com Teerã levanta sérios questionamentos sobre o posicionamento internacional de Budapeste, especialmente por coincidir com o suporte da Casa Branca à campanha de reeleição de Orbán. O governo húngaro, que enfrenta uma disputa acirrada contra o rival de centro-direita Peter Magyar, recebeu apoio explícito do vice-presidente dos EUA, JD Vance, poucos dias antes do pleito, apesar das tensões crescentes entre Washington e o regime iraniano.
Além do flerte com o Irã, a política externa de Orbán segue sob vigilância devido aos laços estreitos com Moscou. Contatos regulares entre a diplomacia húngara e o governo russo têm sido utilizados para coordenar esforços que contornam as sanções da União Europeia. Para especialistas, esse “jogo duplo” entre potências ocidentais e regimes como os de Rússia e Irã coloca a Hungria em uma posição de isolamento e contradição dentro do bloco europeu.
