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    Início Igreja de Santo Alexandre: um símbolo da presença jesuíta na Amazônia colonial
    Colunista Bárbara Selvate

    Igreja de Santo Alexandre: um símbolo da presença jesuíta na Amazônia colonial

    Bárbara SelvateBárbara Selvate9 de fevereiro de 2024
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    Fachada principal da igreja de Santo Alexandre. Foto: Reprodução/Ver-Belém
    Dando continuidade ao nosso roteiro visagento chegamos ao nosso próximo destino, a Igreja de Santo Alexandre. A construção, cujo estilo predominante é o barroco, é um dos pontos altos do legado da Companhia de Jesus na região amazônica dos séculos XVII e XVIII.

    O nome “Feliz Lusitânia” carrega consigo os ecos da história e da colonização portuguesa que moldaram a cidade de Belém a partir de 1616. Inicialmente atribuído ao núcleo pioneiro de Belém, composto pelo Forte do Presépio, uma estrutura de madeira coberta com palha, e a ermida dedicada à Nossa Senhora da Graça, este nome ressoa até os dias atuais. O Forte do Presépio foi um marco fundamental, simbolizando a presença lusa na região. Sua estrutura original, embora construída com materiais perecíveis como madeira e palha, sustentava o fervor religioso da época.

    A ermida dentro do forte, dedicada à Nossa Senhora da Graça, testemunhava a devoção dos colonizadores. Os primórdios da ocupação contaram com igrejas construídas em taipa de pilão, mas o passar do tempo não poupou essas edificações, levando a reconstruções no século XVIII. Este processo histórico reflete a resiliência dos colonizadores em face dos desafios naturais e a determinação em manter viva a presença portuguesa na Amazônia.

    Atualmente, o nome ‘Feliz Lusitânia’ ressurge como uma designação abrangente para o complexo turístico e histórico que engloba o Museu de Arte Sacra do Pará, localizado na Igreja e Colégio de Santo Alexandre, o imponente Forte do Castelo, a majestosa Catedral da Sé, a Casa das Onze Janelas e a serena Praça Frei Caetano Brandão. A preservação desse patrimônio reflete a reverência à história e à herança cultural, unindo o antigo ao contemporâneo. A ideia por trás do nome ‘Feliz Lusitânia’ ressurge como uma homenagem à origem da cidade, destacando sua importância como um tesouro histórico e turístico, onde as raízes portuguesas permanecem vivas e vibrantes.

    Foto: Reprodução/Ver-Belém

    A PRESENÇA JESUÍTICA NA AMAZÔNIA COLONIAL

    Os jesuítas, membros da Companhia de Jesus, foram padres cuja missão estava profundamente enraizada na propagação do evangelho ao redor do mundo. Fundada em 1534 por Inácio de Loyola, essa ordem religiosa foi oficialmente reconhecida pela Igreja Católica em 1540, sob o papado de Paulo III. Sua abordagem para disseminar o cristianismo era centrada no ensino da catequese, uma forma de instrução religiosa fundamental para a conversão e aprofundamento da fé. Os jesuítas deixaram uma marca indelével em várias partes do globo, mas foi no contexto do Brasil colonial que se destacaram particularmente.

    Na Europa, os jesuítas emergiram como uma resposta ao movimento da contrarreforma, que buscava fortalecer a posição da Igreja Católica frente aos desafios trazidos pela Reforma Protestante. Assim, os jesuítas desempenharam um papel crucial na contenção do avanço do protestantismo e na defesa da ortodoxia católica. Através de seu compromisso com o ensino, a evangelização e a promoção dos valores cristãos, os jesuítas moldaram profundamente a história religiosa e cultural de muitas regiões do mundo, sobre tudo na região das Américas, deixando um legado duradouro que ecoa até os dias de hoje.

    A relevância dessas missões transcende a esfera religiosa, pois desempenharam um papel crucial na consolidação da religião católica como parte integrante da identidade regional. Além disso, a presença dos jesuítas contribuiu para a expansão do domínio português na Amazônia, consolidando a influência cultural e religiosa da metrópole europeia naquela remota parte do território brasileiro, como explica o historiador Pedro Victor Ribeiro Barbosa, graduado em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

    Foto: Reprodução/Ver-Belém

    De acordo com o historiador, “os primeiros jesuítas chegaram no Brasil Colonial em 1549, sobre a liderança do Pe. Manuel da Nóbrega, eles vieram com o objetivo de expandir o projeto catequizador instaurado pela Igreja Católica, que era definido como “missão”, assim dito, eles iniciaram o processo de catequização dos gentios que eram os mais novos súditos do Rei de Portugal”. Além de seu papel na catequização e integração dos povos nativos à sociedade colonial, os jesuítas também enfrentaram uma série de conflitos com os colonos que buscavam escravizar os indígenas nos séculos XVI e XVII. A postura dos jesuítas em proteger os nativos da escravidão provocou uma resposta significativa por parte das autoridades coloniais. Deste modo a Coroa portuguesa promulgou leis que restringiam a escravização dos nativos. Estas leis permitiam a escravização somente em casos de “guerra justa”, isto é, quando os indígenas estavam envolvidos em hostilidades diretas contra os colonos portugueses.

     Ao longo dos séculos, os jesuítas acumularam considerável riqueza e poder, uma realidade impulsionada não apenas pelo controle e exploração da mão de obra indígena, mas também pelo acesso a recursos valiosos, como as chamadas “drogas do sertão” exploradas pelos religiosos na região do Grão-Pará. Esses recursos contribuíram significativamente para a prosperidade da ordem religiosa, conforme conta o historiador, “dentro da logística de instrução e catequização no período colonial, os eclesiásticos eram os responsáveis pela difusão do cristianismo, sendo que, apesar de haver outras denominações religiosas que exerciam esse papel, em 1639, a Companhia de Jesus passou a ter monopólio das missões de catequização no Estado do Grão-Pará e Maranhão. Nesse sentido, os jesuítas passaram a ter o controle sobre a principal “moeda” de trabalho dentro do contexto do Brasil Colonial”.

    No entanto, à medida que o tempo avançava, a relação entre a Companhia de Jesus e a Coroa portuguesa começou a deteriorar progressivamente, especialmente a partir do século XVIII. A crescente tensão culminou na expulsão dos jesuítas de Portugal e de todas as colônias portuguesas durante o governo de Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido como o marquês de Pombal, que ocupava o cargo de secretário de Estado de Portugal na época.

    Pedro Barbosa ressalta que “no século XVII, através do Alvará de 25 julho de 1638, a Companhia de Jesus passou a ter amplo controle sobre as missões no Estado do Grão-Pará e Maranhão, e por conta disso, os jesuítas passaram a ter um protagonismo muito relevante na história brasileira” e que houve um certo fortalecimento da Companhia de Jesus em comparação as outras ordens religiosas que aqui existiam, deste modo “os jesuítas entraram em uma posição de superioridade perante aos desatinos na colônia”.

    De acordo com Pedro Barbosa, expulsão dos jesuítas em 1759 representou uma tentativa da Coroa portuguesa de consolidar o controle sobre suas colônias e neutralizar a influência de ordens religiosas que operavam de forma autônoma e muitas vezes sem a supervisão ou autorização direta da metrópole,  “fica evidente que a relação constituída entre os jesuítas e os indígenas com o passar dos anos nas missões de catequização proporcionou a esses religiosos galgar cada vem mais destaque e poder dentro do mundo colonial, e consequentemente, isso desagradava as elites locais e políticas, sendo esse o principal motivo que ocasionou a expulsão da Companhia de Jesus em 1759 por decreto do Marques de Pombal”.

    Foto: Reprodução/Visit Pará

    Além da expulsão das terras portuguesas, ao longo do século, os jesuítas também enfrentaram a mesma medida em outras nações europeias, refletindo uma tendência mais ampla de descontentamento e hostilidade em relação à ordem religiosa em todo o continente. Esses eventos marcaram o declínio do poder e influência dos jesuítas, alterando profundamente o cenário religioso e político em que estavam inseridos.

    DE SÃO FRANSCICO DE XAVIER À IGREJA DE SANTO ALEXANDRE: INFLUÊNCIA JESUÍTA NA ARQUITETURA

    A Igreja de São Francisco Xavier, erguida em 1616 pela Companhia Missionária Jesuíta, é um testemunho vívido da história e da arte sacra na região amazônica. Inicialmente construída ao lado do Colégio Jesuíta, o primeiro edifício era modesto, de taipa, com um único altar. No entanto, em 1668, Cristóvão Domingos liderou a construção de uma nova igreja, mais sólida, dedicada a São Francisco Xavier.

    A nova igreja também refletia a exuberância da floresta amazônica. Os jesuítas buscaram inspiração na natureza ao seu redor, substituindo os motivos tradicionais do barroco por elementos locais, como pássaros e frutos regionais. Essa abordagem única conferiu à igreja uma identidade distinta, diferenciando-a das obras barrocas mais tradicionais características da Europa.

    Com uma nave única e oito capelas laterais em torno do altar-mor, a Igreja de São Francisco Xavier exibe duas fases do barroco: a áurea e a decadente. A riqueza dos detalhes na talha dos púlpitos e no altar-mor, especialmente os coroamentos elaborados com numerosos anjos, obra do irmão jesuíta João Xavier Traer, destaca-se como uma das características mais marcantes do templo. Além de sua beleza arquitetônica e artística, a igreja abriga um valioso acervo de imagens sacras, contribuindo para sua importância histórica e cultural na região.

     A construção da igreja passou por três etapas fundamentais até sua inauguração em 1719, durante o século XVIII, testemunhando uma evolução arquitetônica e estrutural ao longo do tempo. Cada fase da construção reflete mudanças não apenas na estrutura física, mas também nas lideranças envolvidas e nas escolhas de design. A primeira etapa, liderada pelo padre João de Souto maior em 1653, resultou em uma estrutura simples construída com taipa e folhas de palmeira. Este estágio inicial, embora modesto em sua concepção, serviu como a base para as fases subsequentes da construção, marcando o início do desenvolvimento da igreja.

    Na segunda fase, projetada pelo arquiteto Cristóvão Domingos e inaugurada em 3 de dezembro de 1668, introduziu mudanças significativas. Esta etapa trouxe consigo não apenas uma evolução estrutural, mas também uma mudança na devoção, pois o templo foi dedicado a São Francisco Xavier. Curiosamente, apesar da importância do santo, a identificação com a população não era tão expressiva.

    O colégio, construído adjacente ao templo, recebeu o nome de Santo Alexandre, adicionando um componente educacional à estrutura. Essa segunda fase representou um passo adiante em termos de arquitetura e propósito, integrando a devoção religiosa com a educação promovida pelos jesuítas na região. A terceira e última fase culminou na inauguração final da igreja em 21 de março de 1719, consolidando os esforços de todas as etapas anteriores. A estrutura resultante, marcada por suas transformações ao longo do tempo, não apenas serviu como um local de culto, mas também como um símbolo da evolução arquitetônica e espiritual que caracterizou o século XVIII na região.

    Em 1756 o arquiteto bolonhês, Antonio Giuseppe Landi, ou como ficaria popularmente conhecido, Landi, teve como uma de suas primeiras contribuições notáveis para a arquitetura amazônica decoração da capela maior da Igreja de Santo Alexandre. Esta obra revela não apenas a habilidade artística de Landi, mas também marca o início de sua presença significativa na paisagem arquitetônica de Belém. A sensibilidade do arquiteto em relação às condições climáticas da Amazônia tornou-se evidente em suas intervenções subsequentes.

    Com a expulsão dos jesuítas, Landi assumiu a responsabilidade pelo redesenho da fachada principal do Colégio Santo Alexandre, que agora se tornava a residência episcopal. Inspirado pelos princípios do Iluminismo pombalino, o arquiteto introduziu diversas janelas na fachada, marcando não apenas uma mudança estilística, mas também uma transição ideológica, afastando-se da influência religiosa anterior.

    A antiga igreja, então, passou a ter o mesmo nome do colégio, adotando a denominação de Santo Alexandre. Essa mudança, segundo a crença popular, deve-se à devoção intensa que a comunidade local nutria por esse santo. Acredita-se que as relíquias de Santo Alexandre foram doadas aos jesuítas pelo Papa Urbano VII, e essas preciosas relíquias foram trazidas com a ordem religiosa para Belém. Serafim Leite, notável historiador mencionado na obra da Secretaria de Estado de Cultura do Pará (SECULT/PA) intitulada “História da Companhia de Jesus no Brasil” (1943), contribui para a compreensão dessa devoção. Leite destaca a presença de um relicário no altar colateral da esquerda, indicando o caráter sagrado associado ao túmulo dourado de Santo Alexandre. Essa relíquia, possivelmente abrigada na igreja, torna-se um elo tangível com a espiritualidade e a veneração dedicadas a esse santo específico.

    Além de sua beleza arquitetônica e artística, a igreja abriga um valioso acervo de imagens sacras, pinturas, pratarias, dentre outras peças, contribuindo para sua importância histórica e cultural na região. Desde sua fundação, a Igreja de Santo Alexandre continua a ser um ponto de referência e um testemunho do legado jesuíta na Amazônia, atraindo visitantes de todo o mundo.

    Na próxima semana falaremos do Museu de Arte Sacra composto por cerca de 400 peças com temática sacra, dentre elas estão imagens, quadros e objetos litúrgicos, ainda teremos um relato de uma suposta mulher sem rosto que ronda o espaço.

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    Pesquisadora, escritora, comunicadora e graduanda em História pela UFPa. Pesquisa temas como gênero, casamento e família no período da Belle Époque Amazônica. Amante dos clássicos da literatura, sobretudo das narrativas de Walcyr Monteiro. Paraense, natural de Ananindeua. Em sua coluna Bárbara abordará temas relacionados a história e a cultura de Belém, Ananindeua e a Amazônia com um toque do sobrenatural e encantarias presente no imaginário paraense.

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