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    “O único clube rapaz é o Botafogo” disse Mário Filho

    Taciano CassimiroTaciano Cassimiro10 de fevereiro de 2025 FOLHA DE ESPORTES
    "O único clube rapaz é o Botafogo" disse Mário Filho
    Botafogo (Foto: Divulgação/Botafogo)
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    O único clube rapaz é o Botafogo. Explica-se: foi o único clube que nasceu rapaz. Os outros, pelo menos, procuraram nascer homens. Ja’o Botafogo teve a preocupação de ser o oposto do Fluminense, que era o homem-feito. O Fluminense foi um clube que nao nasceu assim, de um repente. Com o time formado, com tudo o que seria ele, demorou um ano. Surgiu depois de muito estudado, de muito pensado. O Botafogo, pelo contrário, so precisou de uma apresentação ao Fluminense para virar clube. E’um detalhe que nao deve ser esquecido por quem tentar compreender o Botafogo. Os rapazes que nao pensavam em formar clube algum foram levados ao campo do Fluminense para serem do Fluminense. Diante do Fluminense, eles se sentiram, logo e logo, Botafogo.

    Não se tratava so’ dos bigodes dos jogadores do Fluminense. O Fluminense também tinha bigodes. Havia, entre os rapazes do Colégio Abílio e o Fluminense, uma distância de idade. Essa idade não se contava apenas pelos anos do Fluminense, dois, ou dos jogadores do Fluminense, alguns ainda rapazes. Era a concepção da vida, vamos dizer. Os rapazes do Fluminense tratavam logo de se adaptar, de usar bigodes imaginários. Os rapazes do BOTAFOGO queriam também ser homens, mas continuando rapazes. Dai’ se sentirem quase imberbes diante dos homens-feitos do Fluminense. A reação deles, forte, e renovada sempre pela rivalidade que foi a primeira do futebol carioca, tornou-os mais rapazes ainda, marcou-os eternamente rapazes.

    Pouco importava que um Flavio Ramos, dezessete anos e primeiro Presidente do BOTAFOGO, se sentisse rapaz demais para ser presidente do mesmo BOTAFOGO. O homem-feito, procurado e encontrado, que foi ser Presidente do BOTAFOGO, nao mudou o que ja’ era imutavel. Ser do BOTAFOGO era ser rapaz. A gente ve^ velhos Botafoguenses, curvados pelos anos, e ate’ estranha um pouco. Serao ainda Botafoguenses? Mexam com o BOTAFOGO e verao. Os velhos endireitam logo a espinha , estufam o peito, reacendem a chama do olhar e estao prontos. E nao e’dificil mexer com o BOTAFOGO. Nao ha’ clube de mais sensibilidade `a flor da pele, com mais orgulho de Grande de Espanha que o BOTAFOGO. Eis porque ele esta’sempre disposto a topar paradas, a se meter em encrencas, a arriscar ate’ a propria vida por uma coisinha.

    Nada que o atinja e mesmo que nao o atinga, mas que ele julgue que foi para atingi-lo, e’coisinha para ele. Ele devia ter nascido em outra epoca. E’ a unica flor retardataria de capa-e-espada que surgiu depois dos 1900. Trata-se mais de um gascao, de um D’Artagnan, sempre pronto a desembainhar a espada. Ouve muito mais a voz do coracao do que a da cabeca. Qual era o clube capaz de largar uma Liga, sem outra Liga para ir, por causa da suspensao de um jogador? Aconteceu isso em 1911, justamente no ano em que o fluminense preferiu perder um time a deixar de ser o que era, isto e’, o fluminense. O Botafogo fez o contrario, para continuar mais Botafogo do que nunca.

    O que o fluminense fez , so’o fluminense faria. Mas tambem so’ o Botafogo arriscaria tudo por um jogador. NAo se tratava da falta que esse jogador poderia fazer ao time, embora ele se chamasse Abelardo De Lamare. E ai’temos uma amostra do d’artagnanismo do Botafogo. Um por todos e todos por um. Abelardo De Lamare era um deles, era eles tambem, era o Botafogo. Eles nao se separavam , nao se distinguiam, fundindo-se no Botafogo. Assim o bofetao de Abelardo De Lamare em Gabriel de Caravlho nao foi o bofetao de um jogador noutro jogador. Foi o bofetao de um clube. Todos assumiram a mesma responsabilidade e se recusaram a aceitar a punicao de um so’. O Campeao de 1910 abandonou o campeonato e ficou um ano jogando na pedreira.

    E aquele gesto, que seria de indisciplina, serviu para mostrar um dos mais belos tracos do Botafogo. Saindo da Liga, o Botafogo podia perder todos os jogadores. Era o time Campeão de 1910, justamente o que tinha realizado uma revolução no futebol carioca. Até 1910 os jogadores usavam bigodes. Mesmo os jogadores sem bigodes eram como se os tivessem. O Botafogo foi campeão com um time rapaz, com um time que tinha vindo do Botafogo mirim, o Carioca, viveiro do Glorioso. E aí os outros clubes trataram de fazer o mesmo. O futebol que, para se dar ao respeito, tinha de nascer homem-feito, já podia dar-se ao luxo de ser jovem, de ser rapaz. E esta foi uma obra do Botafogo.

    Qual era o clube que não quereria os jogadores do Botafogo? O Botafogo, porem, não perdeu um jogador. Todos ficaram juntos jogando na pedreira, que era um campo do Morro da Viúva. Era o que se chamava de um campeonato de Liga barbante. OS jornais não tomavam conhecimento dele. Assim os jogos se realizavam, por assim dizer, anonimamente. E la’ estavam os craques Campeões de 1910, o Glorioso em carne e osso, jogando com os clubes da pedreira como se esse fossem fluminenses. Com o mesmo entusiasmo, com a dedicação, com o mesmo Botafoguismo, palavra que significa o mesmo que quixotismo. Eram uns Dom-Quixotes os jogadores do Botafogo.

    Ou eram simplesmente rapazes. Continuavam a ser rapazes, levados pelos impulsos generosos da mocidade. Cometiam erros: no erro e no acerto tinham o mesmo élan. Podiam reconhecer o erro, mas não voltavam atrás. Era o tal orgulho de Grande de Espanha, idêntico na riqueza e na pobreza. Como sairá sozinho de uma Liga, mais tarde seria o único a ficar com uma Liga em nome de um amadorismo que não existia. Por isso muita gente não entendeu o Botafogo. E’ que se queria julgar o Botafogo pelos padrões normais. Como se ele fosse um clube igual aos outros. Entao o Botafogo não via que estava arriscando a própria vida?

    O que decidiria qualquer outro clube a mudar de rumo tornou ainda mais irredutível o Botafogo. Para ele era uma questão de honra e ninguém o podia demover. Ficou com trezentos sócios, e cada socio que saia unia mais o Botafogo. É que ficavam e ficariam os verdadeiros Botafogo, os Botafogos para a vida e para a morte. Ai’ mesmo e’ que não acabavam com o Botafogo, com aquela legião de rapazes de todas as idades, alguns que tinham visto nascer o Clube, mas rapazes ainda e mais rapazes do que nunca, porque nem o rolar dos anos havia tirado deles o ardor da mocidade.

    Bastaria, porém, conhecer as origens do Botafogo para compreendê-lo , admirá-lo, mesmo discordando dele. Realmente chega a comover um encontro assim com D’Artagnan no seculo XX. Não é possível, dirão uns, e eis o Botafogo. Ainda e’ um personagem de romance de capa-e-espada, com noções de honra dos velhos tempos, ofendendo-se por um nada. E se a gente quiser ir mais longe, deixar os Juízes da Franca e os Grandes de Espanha, pode chegar até as Cruzadas para descobrir Botafoguenses.

    Noutros tempos, ele foi popular. Mas a popularidade, então, era o nome que se dava a um clube com centenas de sócios e alguns milhares de torcedores. O grande campo era o do fluminense e la’ cabiam, estourando, 5 mil pessoas. O Botafogo tem mais gente do que a gente pensa. MAS SER BOTAFOGO E’ ESCOLHER UM DESTINO E DEDICAR-SE A ELE. NÃO SE PODE SER BOTAFOGO COMO SE E’ OUTRO CLUBE. E’ PRECISO SER DE CORPO E ALMA. E é preciso, antes de ser Botafogo, ser rapaz, mesmo velho. Ser um Dom Quixote, um D’Artagnan.

    Texto de Mario Filho “O Clube da Capa-e-Espada” In “O Sapo de Arubinha – Os anos de sonho do futebol brasileiro” , Cia. das Letras 1994, pp. 74-77.

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    Taciano Cassimiro
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    Jornalista (MTE 3190/PA) e bacharel em Teologia. Possui pós-graduações em História do Brasil, Direito Político e Eleitoral, Jornalismo Político, História da América, Ciência Política, Relações Internacionais e Comunicação em Crises Internacionais, além de um MBA Executivo em Gestão Estratégica de Publicidade e Propaganda. Atualmente, é pós-graduando em Relações Públicas e Assessoria de Imprensa. É membro do Sindicato dos Jornalistas do Pará (SINJOR) e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Alagoano de Maceió, adota o Pará como lar e divide sua paixão pelo futebol entre o CSA, Vasco da Gama e Paysandu.

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