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    Tabata Amaral: “Weintraub é mais perigoso, porque tem capacidade de execução”

    Taciano CassimiroTaciano Cassimiro2 de junho de 2019 POLÍTICA
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    Na segunda parte do encontro de Inconsciente Coletivo com Tabata Amaral, aprofundamos a conversa sobre o Ministério da Educação;

    “Weintraub é mais perigoso, porque ele tem capacidade de execução. Acho que o Vélez se perdia nas trapalhadas”.

    “Não estou criticando ele por estar cortando das universidades, estou criticando por estar cortando sem nenhum critério, por razões ideológicas”.

    “Tem essa campanha toda de desinformação que ele (Weintraub) está fazendo ao falar que em setembro vai ser liberada a verba. Não vai ser liberada, porque o Brasil não vai mudar nada até setembro. Não vai aprovar a reforma da previdência até setembro”.

    …política e redes sociais;

    “Foi importante entender que o que está nos comentários não é o que a população está pensando”.

    Sobre o MEC, o que você acha que esse governo fez do ministério desde que assumiu?

    Vamos falar das duas gestões: começando pela do Vélez Rodríguez. Eu não consigo apontar um projeto que avançou. O que a gente viu foi um monte de dinheiro sendo gasto com as várias desonerações, várias polêmicas, vários desmandos. Teve aquela história de mandar os alunos lerem o slogan do governo nas escolas…

    Monte de dinheiro sendo gasto?

    O Vélez foi um dos ministros que mais gastaram. Quando você contrata, tem muito gasto administrativo, como o auxílio mudança por exemplo. E assim, projeto que é bom a gente não viu nada. Então, para mim, o Vélez estava ali atrapalhado, mas era só isso.

    E o atual ministro?

    Aí a gente tem o Abraham Weintraub, que é diferente, mas é igualmente ou ainda mais preocupante. Falando sobre o contexto geral, acho que o governo precisa se alimentar de alguma coisa para se manter no poder sem proposta, então eles criaram essa guerra contra o ‘marxismo cultural’, como se fosse um inimigo. Eles estão nessa batalha quase messiânica. Você vê o Bolsonaro se comparando a Jesus Cristo, o ministro da educação se comparando a Jesus Cristo. Uma coisa fantasiosa, mas um pouco preocupante. Eles entenderam que o lugar onde travariam essa batalha seria na educação, porque é nas escolas e nas faculdades que você aprende a questionar, a pensar.

    Estão nessa batalha messiânica. Uma coisa fantasiosa, um pouco preocupante.

    O ministro fez um vídeo falando que o Enem estava garantido. Não é isso que a gente está vendo, o calendário de implementação está bem atrasado. Os projetos mais sólidos estão sem avançar, esses cortes são feitos sem nenhum critério, por questões ideológicas, há uma grande campanha de desinformação para falar que o contingenciamento não é corte.

    Quando eu tento questionar, vem uma tentativa de coação pessoal. “Se você está me questionando (que é o meu papel), então eu vou tentar te expor, ou vou tentar manchar a sua imagem. Vou distribuir seu número de telefone, vou falar que você não quis se reunir comigo”. Mas aí o governo é tão atrapalhado que erra nas datas dos prints que distribui, pois as datas se referiam à gestão anterior.

    Nesse meio do caminho, se prejudica o que tem mais sólido. A gente vai perdendo a pesquisa, as escolas estão até hoje sem previsão para a implementação da base, estamos sem previsão para implementação da reforma do ensino médio. Nesse meio do caminho, eles tentam atacar o pessoal de quem está tentando fazer o seu trabalho que é fiscalizar, que é cobrar.

    Você vai processar o ministro Weintraub, mesmo?

    Sim. A gente vai tomar todas as medidas que cabem. Eu já fiz a primeira, que é uma interpelação. A próxima é danos morais.

    Por que ele é mais preocupante que o Vélez?

    Porque ele tem capacidade de execução. Acho que o Vélez se perdia nas trapalhadas e não tinha. Tanto, que já tem muitas faculdades que foram afetadas, muitas linhas de pesquisa… enfim. Você vê incentivar que alunos gravem vídeos contra professores e a violência crescendo nas salas de aula.

    Vieram à tona nesse corte algumas discussões sobre o investimento nas universidades federais, que é cerca de quatro vezes maior do que no ensino básico. Tem também a questão das despesas obrigatórias bloquearem o orçamento. Um debate quanto à gestão seria bem-vindo, não?

    Uma crítica que eu faço em relação ao ministro, e acho que essa é uma coisa pela qual sou criticada, inclusive dentro da esquerda, é por tentar sair um pouco desse embate ideológico. Não estou criticando ele por estar cortando das universidades, estou criticando por estar cortando sem nenhum critério, por razões ideológicas. Esse é o meu ponto. Concordo que esse debate sobre onde a gente investe mais deva existir. Ele é muito válido, só que não é o que está sendo feito agora.

    Vamos pensar em novas formas de financiamento, tipo endowments (fundos patrimoniais) que o governo não quer implementar sabe-se lá Deus por quê. Tem outra coisa que é que quando a gente corta, tem que fazer OBZ (Orçamento Base Zero). Faço isso com minha equipe: você olha linha a linha. Tem faculdades e universidades que dá para cortar mais do que outras. Universidades que fazem uma gestão muito eficiente são penalizadas quando você faz um corte burro.

    O corte aconteceu ou o ministro voltou atrás? Foi anunciado um recuo na semana passada…. ou isso foi papo furado?

    Foi papo furado. O que aconteceu: as faculdades viram bloqueado no sistema o dinheiro que elas teriam. Muitas já começaram o ano com déficit, acho que a maioria. Aí vem o MEC e diz que vai cortar 30% e um segundo corte depois que não foi tão anunciado. Teve um contingenciamento total de uns 37%, se não me engano. E tem que contar que já tinha uns 30% de déficit do ano passado. Então vira uma confusão… e aí ele falar: mas é só 3,5%. Não é, porque as faculdades não conseguem cortar de salários e aposentadorias. Aí tem essa campanha toda de desinformação que ele (Weintraub) está fazendo ao falar que em setembro vai ser liberada a verba. Não vai ser liberada, porque o Brasil não vai mudar nada até setembro. Não vai aprovar a reforma da previdência até setembro.

    O Brasil não vai mudar nada até setembro. Não vai aprovar a reforma da previdência até setembro.

    Mas semana passada eles disseram que ia voltar a verba…

    Não. O que eles falaram foi de recuar os novos cortes. Sabe quando teve a revisão do crescimento do PIB? O ministério da Economia fez outros cortes e tinha mais cortes para Educação. Eles recuaram e seguraram esse novo corte. Estão tentando jogar para outras áreas, mas não teve nenhum recuo verdadeiro.

    Você tem algum recado para o presidente Bolsonaro?

    Ele tem algumas opções, que não são autoritárias. Gostaria que finalmente dissesse, “está bem, vou me esforçar para fazer o que se espera de um líder democrático e se eu não conseguir, vou trazer pessoas boas para o meu redor. Um ministro da Educação que entende de educação, um ministro de Relações Exteriores que entenda de relações exteriores, um ministro do Meio Ambiente que entenda a importância do meio ambiente.

    Pelo menos na Economia e na Justiça os ministros são técnicos, goste-se ou não deles… e na Infra-Estrutura também.

    São escolhas técnicas. Eu sempre tento reconhecer que, além das críticas, as escolhas do ministério da Justiça ou da Economia são técnicas -que você pode discordar no âmbito ideológico, e a democracia está aí para isso. Mas o ministério do Meio Ambiente, o ministério da Educação, é uma questão quase do que é são e do que não é. Então, para mim, não é uma discordância ideológica. Eles estão colocando muitas coisas preciosas para o nosso país a perder.

    Você defende na política uma renovação de princípios, práticas e pessoas. O que seria isso?

    Conectando um pouco do que a gente tirou nas eleições, a renovação de pessoas é o que a gente viu: Bolsonaro presidente, o Congresso com uma renovação histórica, e etc. A renovação de práticas é o que a gente ainda não viu. É um pouco da ideia de você sair da má política e chegar na boa política. É você fazer uma negociação com base em ideias, não com base em trocas. É você ter uma relação com as pessoas um pouco mais transparente, que para mim tem a ver com uma boa política.

    Uma renovação de ideias é sair deste embate raso entre o bem e o mal que não aprofunda em nenhum dos problemas do Brasil

    Já uma renovação de ideias é você sair um pouco dessa guerra que a gente está vivendo hoje, de bons contra os maus. De salvadores da pátria contra quem colocou tudo a perder. Tem que ser mais honesto intelectualmente: quais são os problemas do Brasil? É o desemprego? É a educação, a saúde, a segurança? Então, para mim, uma renovação de ideias é sair deste embate raso entre o bem e o mal que não aprofunda em nenhum dos problemas do Brasil.

    Sobre as novas tecnologias, há muitos parlamentares fazendo transmissões ao vivo sem parar, no Congresso, o presidente e seus filhos não saem do twitter, há também toda uma discussão sobre fake news. O que é bom para a política nas novas tecnologias e o que não é?

    Eu sempre olhei para tecnologia como uma ferramenta, como um instrumento. Ferramentas e instrumentos não são nem bons, nem maus. São só meios. Eu tinha uma pequena rede de contatos, que durante a campanha eu me aproximei, que telefonava, convidava para reuniões, para que fossem voluntários na minha campanha.

    Eu mando o convite para nosso projeto de Gabinete Itinerante pelas redes, onde mais de 300, 400 pessoas se reúnem com a gente para falar de política em um sábado à tarde. Eu comunico que isso vai acontecer pelas redes sociais, mas a transformação acontece ali, naquela reunião em que a gente se reúne e discute um projeto. Essa é a maneira como eu uso as redes sociais, porque elas também são usadas para o mal hoje, e aí são anos de experiência, não foi só com a campanha. O que eu já recebi de ataques de fake news, de difamação…

    Foi importante entender que o que está nos comentários não é o que a população está pensando. Boa parte da população não está nas redes sociais, ou não está seguindo políticos.

    Para mim foi importante ter o entendimento de que o que está nos comentários não é o que a população está pensando. Boa parte da população não está nas redes ou não está seguindo políticos. Os que estão devem entender também que podem ser um instrumento muito transformador, mas que se não converter para o pessoal, para o físico, isso não é política. Na minha visão é uma coisa muito passageira.

    E a relação do Bolsonaro com o Twitter?

    Acho tão irresponsável… Quando eu vejo um presidente que ouve as pessoas em um meio tão contaminado, penso que ele não está ouvindo as pessoas. Recentemente teve a brincadeira do #PresidenteBoldonaro. Alguém programou o robô errado e uma das hashtags saiu ‘Boldonaro’. Isso mostrou o uso dos robôs, foi uma chacota.

    E depois, ele já foi eleito. Eu mesma tomo cuidado. Tento convidar as pessoas a participar dos encontros e não ficar debatendo coisas políticas profundas, porque ali não é o meio. Acho que ao invés dele ficar ali no Twitter -ou o filho dele-, sei lá, quem fica postando aquelas coisas, falando besteira, atacando como se estivesse em campanha ainda… pôxa, marca conversa com os partidos da oposição, mas conversa real. Continua marcando conversa com os presidentes do Congresso, da Câmara, do Senado. Vai falar com seus ministros, vai pensar quem é que seria o melhor para essa posição. Ele é um chefe de Estado hoje. Twitter não combina muito com o chefe de Estado, a não ser que seja um Twitter bem institucional.

    O que tem de bom no Bolsonaro?

    Eu acho que ele está unindo as pessoas em torno de coisas que estavam sendo muito esquecidas. A democracia, a educação… Foi muito legal o que aconteceu no dia 15 de Maio, digo como ativista da educação há oito, nove anos. Eu nunca imaginei uma manifestação desse tamanho, tão cedo.

    Se fala mais sobre a democracia, o número de estudos que estão surgindo é muito bom. Porque a gente acha que ela é uma coisa dada, que a gente recebeu a democracia e que ela nunca mais vai desaparecer. Então, nas suas trapalhadas, eu acho que o Bolsonaro está fazendo a gente discutir coisas muito importantes, porque elas foram ameaçadas pela primeira vez de verdade em muito tempo.

    Nas suas trapalhadas, eu acho que o Bolsonaro está fazendo a gente discutir coisas muito importantes

    O PT é um partido ultrapassado?

    Não sei. Acho que ninguém tem essa resposta. Acho que se eles não se reinventarem, de alguma forma, ele vai ficar sendo um partido do passado, que teve uma contribuição histórica muito bonita de inclusão, mas que não soube interpretar que as pessoas queriam novas práticas na política. Que as pessoas queriam ver a boa política, de fato. Agora, se o PT vai se reinventar, foge completamente ao meu alcance.

    Eu acho que até agora não se reinventou. Acho que o partido se reinventa quando ele dialoga de fato com as pessoas, com o que elas tão querendo, com a necessidade delas. Quando ele faz com que novas lideranças possam surgir, que ele esteja tão firme que outras pessoas possam puxar para a diante o legado.

    A mesma crítica pode ser feita para o PSDB, para outros partidos. Na hora que eu ver novas lideranças surgindo a nível nacional que não seja FHC e Lula, aí eu acho que esses partidos vão estar preparados para os próximos embates. Para mim, não tem muito a ver com corrupção. Os grandes partidos que estão na Câmara, de alguma forma participaram também dessa corrupção, porque era assim o jogo político. A gente não tem que criminalizar partido, a gente tem que culpar quem foi culpado, tem que julgar, tem que condenar.

    A gente não tem que criminalizar partido, a gente tem que culpar quem foi culpado, tem que julgar, tem que condenar.

    Vamos ver se eles se reinventam e dão espaço para novas práticas, para as novas lideranças. Mas aí eu só sou responsável pelo PDT, não pelos outros. Meu papel aqui em São Paulo é de que em 2020, 50% da lista seja de candidatas mulheres. Estou comprando essa briga no partido e vai dar certo. A gente já começou com o processo de seleção e de formação de mulheres. A gente quer criar um canal de compliance dentro do PDT, que acredito estar fervilhando de novas lideranças. Isso é renovação de partido.

    O financiamento de campanhas é sempre um assunto difícil e delicado…

    Para mim não é um assunto delicado. É difícil, mas por uma razão diferente do que as pessoas pensam. Eu gastei um terço da minha campanha pedindo dinheiro.  Foi um esforço muito grande, eu não tinha um doador que pagou tudo, eu não tinha um partido que pagou tudo. Tive que me encaixar em mais de 50 jantares, é muito constrangedor você pedir para participar de um jantar em que a maioria dos candidatos são do campo da direita, você apresentar sua proposta, ouvir todo tipo de feedback sem nenhum filtro, para uma ou duas pessoas decidirem doar.

    Consegui levantar mais de um milhão de reais de forma honesta, diversificada e sem amarras

    Eu fico frustrada por causa disso. Não é algo que eu escondi, tenho um p*** orgulho porque acho que eu fui uma excelente gestora quando eu fiz esse fundraising, porque para alguém com a renda que eu tinha… não consegui doar um centavo porque estava cheia de dívidas… assim mesmo consegui levantar mais de um milhão de reais da forma honesta, diversificada e sem amarras, como eu fiz, motivo de orgulho total. Se eu fosse um gestor de uma empresa, me contrataria na hora.

    E as pessoas que financiaram sua campanha? O Jorge Paulo Lemann, o Nizan Guanaes?

    Para mim não tem grande mistério. Sou a pessoa que eu conheço que teve a campanha mais diluída. Nem o partido, nem um doador específico doou mais do que 8% do orçamento. Isso para mim é louvável. Existem campanhas que são financiadas por uma doação do partido de dois milhões, uma doação de um indivíduo com dois milhões e meio… quando você vê minha campanha, não só tem 429 doadores, mas todos os 429 doadores declararam… minhas contas foram passadas de primeira.

    Você acha que um jeito legal de financiamento pode ser esse de proporções menores?

    Sim. Sou uma das fundadoras do Movimento Acredito, desde antes de pensar em me candidatar. Tem uma regra de que se esse movimento tivesse candidatos, ninguém receberia mais de 20% de uma única fonte (nem o próprio movimento), então é uma concepção minha. Para minha campanha nunca foi uma preocupação, porque a gente nem bateu os 8%.

    É muito difícil conseguir dinheiro, muito difícil mesmo. Então não foi uma regra que eu tive que me preocupar e etc mas para mim é uma coisa que faz sentido na política.  Se você for candidato a vereador e o cara da esquina te deu cem mil reais para fazer sua campanha, e só ele te deu, daí você vai ter que responder a ele. Agora, se qualquer pessoa que doou uma fração algum dia pedir uma coisa antiética de mim, ainda vão sobrar todos os outros.

    Fonte: ESTADÃO

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    Taciano Cassimiro
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    Jornalista MTB 3190/PA, Bacharel em Teologia, Pós-Graduações: História do Brasil, Direito Político e Eleitoral, Jornalismo Político, História da América, Ciências Políticas, Relações Internacionais, Comunicação em Crises Internacionais | Pós-Graduando MBA Executivo em Gestão Estratégica de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Assessoria de Imprensa | Membro do SINJOR (Sindicato dos Jornalistas do Pará) e da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). Alagoano, de Maceió. Torcedor do CSA, Vasco da Gama e Paysandu.

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