A Construção do Mito de Tiradentes e o Problema de Imagem
A construção do mito de Tiradentes é um dos casos mais fascinantes de “criação do fato” na história do Brasil, algo que dialoga diretamente com a obra de Jaime Pinsky e seus coautores que discutimos antes.
Quando a República foi proclamada em 1889, o novo regime enfrentava um problema de imagem: não houve participação popular e faltava um rosto que simbolizasse a mudança. Dom Pedro II era querido por muitos, então os republicanos precisavam de um antimatriz monárquica.
A Estratégia de “Marketing” Republicano
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O “Jesus Cívico”: Tiradentes, que na realidade era um oficial militar (alferes) e provavelmente usava barba feita e cabelos curtos como exigia a norma da época, passou a ser retratado com barbas e cabelos longos. A intenção era clara: aproximar sua imagem à de Jesus Cristo, transformando sua execução em um “calvário” pela pátria.
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A Escolha do Mártir: Entre todos os inconfidentes, Tiradentes foi o escolhido para ser o herói porque era o de origem mais simples. Os outros líderes (poetas e magistrados) foram apenas exilados, enquanto ele foi o único a pagar com a vida. Isso facilitava a conexão do povo com o movimento.
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O feriado de 21 de Abril: A data foi rapidamente institucionalizada para criar um senso de identidade nacional sob o novo regime, ocupando o vácuo deixado pelas festividades imperiais.
O Contraste de Imagens
| Elemento | Realidade Histórica | Construção Republicana |
| Aparência | Militar, asseado, sem barba (padrão militar). | Místico, barbudo, túnica branca (estética religiosa). |
| Motivação | Conflito fiscal e ideais iluministas regionais. | Sacrifício supremo pela “unidade brasileira”. |
| Status | Alferes (baixa oficialidade). | Líder espiritual e intelectual único. |