Autor: Estella Nunes
Graduada em licenciatura em história pela Universidade do Estado do Amazonas (CESP/ UEA), especialista em história, cultura e literatura afro- brasileira e indígena. Graduanda em Direito do 9 semestre pela Universidade da Amazônia - Unama Santarém.
Na noite desta sexta-feira, 24 de abril, tive a honra de atuar como palestrante na Semana de Oficinas da UNAMA Santarém, em um momento marcado pela troca de saberes e pelo compromisso social. A partir do tema proposto, reforça-se a urgência de ampliar o debate sobre direitos fundamentais da pessoa idosa, que ainda são, em muitos contextos, negligenciados. Mais do que um espaço acadêmico, a atividade se consolidou como um ambiente de diálogo com a comunidade, permitindo que o conhecimento ultrapasse os limites da sala de aula e alcance a realidade social que nos cerca. Falar sobre o Estatuto da…
“Toma cuidado, nego. Malandragem boa é Malandragem de Mulher.” A chamada “malandragem”, para além da ideia de esperteza, pode ser compreendida como resistência diante das desigualdades. Para muitas mulheres, historicamente excluídas, sobreviver sempre exigiu estratégia, adaptação e coragem. A “malandragem de mulher” revela uma inteligência prática: a capacidade de negociar, enfrentar e resistir em uma sociedade ainda marcada pelo patriarcado. Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer a força construída na necessidade. Na cultura popular brasileira, a figura de Maria Navalha simboliza essa resistência. Presente nas tradições afro-brasileiras e na umbanda, ela representa a mulher que enfrenta…
Anunciei na ponta da maré, anunciei na ponta da maré. Meu pai me chama, eu respondo: quem é? Sou boto branco, sou homem, não sou mulher. Os versos acima integram o repertório das chamadas “doutrinas” da encantaria cabocla amazônica, cantos rituais entoados em contextos de pajelança, nos quais os encantados anunciam sua presença e identidade. O ato de anunciar-se “na ponta da maré” não constitui mero recurso poético, mas remete a um gesto regulado, situado no tempo e no espaço corretos. A maré, nesse universo cosmológico, marca o limiar entre o fundo do rio e a terra firme, entre o…
O Estatuto da Pessoa Idosa, hoje referência nacional na proteção dos direitos das pessoas com 60 anos ou mais, carrega uma história que nasce na Amazônia. Esta pesquisa resgata a trajetória de construção do Estatuto no Estado do Pará a partir da metodologia da História Oral, destacando o protagonismo do jurista e ativista social Emídio Rebelo Filho. Por meio de sua narrativa, evidencia-se que a legislação não foi fruto apenas de decisões institucionais, mas de intensa mobilização social liderada por associações de aposentados e pensionistas paraenses, ainda na década de 1990. A organização coletiva resultou na elaboração de anteprojetos que…
O naufrágio do Barco Sobral Santos, ocorrido em 1981, no porto de Óbidos (PA), deixou centenas de mortos e marcas permanentes na memória de famílias amazônicas. Por Estella Paiva Nunes Na madrugada de 19 de setembro de 1981, o barco Sobral Santos afundou em frente ao porto da cidade de Óbidos, no Pará. A embarcação havia saído de Santarém com destino a Manaus, transportando grande número de passageiros e carga. Entre os que estavam a bordo encontrava-se Francisco Nunes, sua esposa Maria Francisca, e suas filhas, Chirley e Cheila, familiares da autora dessa reportagem . Todos sobreviveram, mas carregaram para…
Instituição criada para “corrigir” crianças e adolescentes na Amazônia deixou marcas de violência, apagamento e memória silenciada. “Eu pensei que tinham me colocado ali para a cobra me comer”, relembrou Francisco de Assis Nunes, ex-interno do Educandário Raimundo de Nogueira Faria e avô da autora desta reportagem. Ele tinha apenas poucos anos quando foi levado à instituição, localizada na Ilha de Cotijuba, em Belém do Pará, destinada a crianças consideradas abandonadas ou infratoras. Durante grande parte do século XX, a pobreza infantil foi tratada como problema social e caso de polícia. Crianças recolhidas das ruas de Belém eram enviadas ao…
