Em Parintins, o boi-bumbá ultrapassa o espetáculo apresentado na arena e se transforma em parte da identidade de quem cresce acompanhando as tradições culturais da cidade. O Festival Folclórico de Parintins carrega memórias familiares, afetos e histórias que atravessam gerações. Em 2026, o Festival de Parintins será realizado nos dias 26, 27 e 28 de junho, reunindo mais uma vez a tradicional disputa entre o Boi Garantido, representado pela cor vermelha, e o Boi Caprichoso, marcado pela cor azul. O espetáculo acontece no Bumbódromo de Parintins, localizado na Ilha Tupinambarana, no estado do Amazonas, cenário que anualmente se transforma no centro da cultura popular amazônica.
Entre essas trajetórias está a de Estella, uma das primeiras moradoras da Rua Cordovil, no centro de Parintins. Mesmo vivendo em uma rua historicamente associada ao Caprichoso, Dona Estela mantinha sua devoção ao Garantido. Na frente de sua residência, a cor azul nunca ocupava espaço. Apenas o branco permanecia presente, símbolo da ligação construída com o boi vermelho. Após as missas, Dona Estela seguia acompanhando as andanças do boi pelas ruas da cidade, vivenciando uma tradição que fazia parte do cotidiano cultural de Parintins. Décadas depois, essa memória continua viva através das histórias contadas dentro da família.
Bisneta de Dona Estela, a autora deste relato afirma não ter conhecido a bisavó, mas reconhece no próprio percurso a continuidade dessa herança cultural. As lembranças da infância incluem as idas à Alvorada nos ombros da mãe, vestindo vermelho, além das inúmeras entradas no Bumbódromo para acompanhar o espetáculo bovino. Dentro da própria família, a rivalidade entre os bois também se fazia presente. De um lado estavam o pai/avô, seu Francisco, torcedores do Caprichoso. Do outro, a mãe/avó, Dona Francisca, defensoras do Garantido. E, segundo a autora, “era uma verdadeira guerra” dentro de casa quando o Caprichoso conquistava o título do festival.
Entre brincadeiras, provocações e paixões divididas, a família vivia intensamente a própria cultura popular parintinense dentro de casa. Durante o período do festival, a mãe da autora também aproveitava a temporada bovina para garantir uma renda extra com a venda de camisas dos bois e artesanato, acompanhando o período em que a cidade vive uma das maiores movimentações econômicas do ano. As memórias da infância também carregam elementos que fazem parte do imaginário de muitas crianças parintinenses. Brincar no quintal de cunhã-poranga, porta-estandarte, pajé, sinhazinha e rainha do folclore era quase um ritual de quem cresceu vivendo o boi-bumbá. Quem nunca pegou galhos de acaizeiro para improvisar adereços e se enfeitou para dançar, recriando no quintal o espetáculo visto na arena?
Os relatos transmitidos por Maria Francisca, mãe/avó da família, também ajudam a compreender as transformações sociais dentro do universo do boi-bumbá. Segundo ela, antigamente o boi não era espaço de mulher, mas sim apenas de homens. O próprio Lindolfo Monteverde, fundador do Boi Garantido, dizia para Dona Francisca que o boi ainda não era lugar de mulher. Naquele período, a presença feminina permanecia distante das vivências centrais da festa. Décadas depois, a realidade se transformou, e hoje o Festival de Parintins é marcado pela forte presença das mulheres em diferentes espaços da cultura bovina.
A relação da família com o boi também atravessa o cotidiano dos rios amazônicos. O pai de Dona Francisca era pescador e pescava ao lado de Lindolfo Monteverde, compartilhando histórias e vivências que hoje permanecem preservadas na memória familiar e na tradição oral de Parintins. Como define a toada DNA Caboclo, do Boi Garantido:
“E a saudade do meu boi-bumbá
Só não é maior que o meu rio
Que o meu rio Amazonas
Te levo aonde vou
Vou contigo, Amazônia
Tá no meu coração
Tá no meu linguajar
Tá na pele morena
Tá no DNA caboclo”
(Garantido, 2012).
A composição traduz a relação afetiva entre o povo amazônico, o território e a cultura popular construída às margens do rio Amazonas, evidenciando como o boi-bumbá se conecta à memória, à identidade e ao pertencimento amazônico. Hoje, o Festival de Parintins representa muito mais do que um espetáculo folclórico. O boi-bumbá permanece como espaço de memória, pertencimento, resistência cultural e construção de identidades no coração da Amazônia brasileira.

