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    TN BRASIL TV – Outro Ponto de Vista
    Colunista Bárbara Selvate

    Na Semana dos Povos Indígenas, Exposição Bancos Indígenas do Brasil – Grafismos faz um resgate da importância da cultura indígena na formação do povo brasileiro.

    Bárbara SelvateBárbara Selvate19 de abril de 2024
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    Na Semana dos Povos Indígenas, Exposição Bancos Indígenas do Brasil – Grafismos faz um resgate da importância da cultura indígena na formação do povo brasileiro.
    Uma das obras em exposição no Museu do Estado do Pará / Foto: AP
    A mostra ‘Bancos Indígenas do Brasil – Grafismos’, com entrada franca, segue aberta no Museu do Estado do Pará.

    No coração da vasta Amazônia, entre as névoas que pairam sobre a floresta, repousa a Maloca do Céu, o santuário onde a Avó do Universo tecia os fios da criação. Sentada em seu banco de quartzo, ela soprava vida aos homens, aos animais, à terra e às águas. Esse banco, símbolo sagrado do poder criativo, foi entregue aos ancestrais dos Tukano, povo que habita as densas selvas do noroeste amazônico.

    • O mito Tukano eleva os bancos à posição de objetos sagrados, elo entre o mundo material e o transcendental, testemunhas ssilenciosas da origem e do destino. Esses bancos não são apenas móveis, mas artefatos carregados de significado, entrelaçando-se com a história e a espiritualidade do povo Tukano. A presença dos bancos nos mitos de origem de diversos povos amazônicos atesta a antiguidade dessa arte. Há registros que remontam a pelo menos 4 mil anos, revelando uma tradição ancestral de talhar a madeira em formas que transcendem o utilitário, adentrando o reino do sagrado.
    Uma das obras em exposição no Museu do Estado do Pará / Foto: AP

    Com mais de 140 peças meticulosamente esculpidas por artistas provenientes de 40 diferentes etnias do Território Indígena do Xingu e da Amazônia brasileira, a mostra com curadoria de Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim, transcende fronteiras geográficas e étnicas para uma imersão na rica herança cultural indígena do Brasil.

    De acordo com Sarah Reis, conservadora e museóloga responsável pela exposição Bancos Indígenas do Brasil – Grafismos, a exposição é um projeto um tanto antigo, iniciado ainda em 2023 e foi pensado, de modo a lançar um diferente olhar para os artistas indígenas, diferente do que infelizmente ainda é visto no Brasil.

    Esculpidos em um único tronco de madeira, sem juntas ou emendas, tomam a forma de animais e entidades míticas que fazem parte da cultura indígena, pintadas com resinas naturais, como o ingá misturado com pó de carvão, açafrão (depa), jenipapo e o urucum (ita). Assim como outros rituais indígenas, produzir o banco é tão importante quanto a forma de usar. Os tamanhos e as formas servem de marcadores sociais.

    Uma das obras em exposição no Museu do Estado do Pará / Foto: AP

    Segundo a museóloga, “bancos são coisas que as pessoas têm casa na maioria das vezes, mas não tem um olhar museológico sobre eles. E aqui a gente reformula e tira esses bancos desse lugar de uso doméstico. Qual é a função de um banco? Ele é feito pra sentar ou apoiar, então nós retiramos desse lugar e lançamos uma nova visão, como uma obra de arte. O que é realmente”.

    Os bancos indígenas representam, um elo entre os rituais e crenças. Ao admirar essas obras de arte, somos convidados a reconhecer e valorizar a contribuição inestimável dos povos originários para a diversidade cultural e a riqueza espiritual do Brasil. É uma exposição que não apenas encanta os olhos, despertando uma consciência sobre a importância de preservar as tradições dos povos originários.

    “Por trás de cada banco, tem todo um pensamento, todo um processo de construção, até mesmo um processo religioso. É isso que nós queremos mostrar, por meio dos vídeos. Mostrar que não é qualquer árvore, não é de qualquer forma que eles vão cortar, que eles vão decorar”, contou Sarah.

    Cada peça carrega em si uma história, uma tradição, e um grande exemplo disso são os bancos de Pajé. O Pajé entra em contato com o mundo espiritual sentado em um banco, estes em sua maioria possuindo formato zoomorfo de uma ave de duas cabeças.

    A exposição não se limitou apenas às peças físicas, mas também abriu espaço para os registros visuais capturados pelas lentes do fotógrafo Rafael Costa. Suas imagens e vídeos oferecem uma janela para além do tempo e do espaço, convidando os espectadores a mergulharem ainda mais fundo na exposição.

    Uma das obras em exposição no Museu do Estado do Pará / Foto: AP

    “Nós buscamos trazer um senso de proximidade para a exposição, isso foi algo que nós pautamos muito, principalmente nos rostos das fotografias. Cada porta tem uma imagem, que te impactam, mas ao mesmo tempo são rostos que te acolhem, são imagens que te trazem um senso de proteção.”

    A exposição que agora se desdobra diante do público paraense não é apenas uma celebração da arte dos bancos indígenas, mas também um lembrete vívido da importância da cultura indígena na formação da identidade do povo brasileiro. É um esforço consciente para difundir não apenas a estética exuberante desses artefatos, mas também para resgatar e preservar o conhecimento, as tradições e os valores transmitidos ao longo de gerações pelos povos originários.

    Ao contemplar cada banco indígena, somos convidados a refletir não apenas sobre sua forma e função, mas também sobre a riqueza simbólica e espiritual que eles carregam consigo. São artefatos que transcendem as barreiras do tempo, conectando-nos de forma profunda com as tradições ancestrais e com a incrível diversidade cultural que define a identidade do povo brasileiro.

    “Aqui na exposição de Belém, nós optamos por chamar a atenção para os grafismos, por exemplo, os grafismos Asurini e os Mehinaku, além de outras etnias, por isso nossa proposta é mostrar que indígena não é somente indígena, como muitas pessoas generalizam”, frisou a museóloga, “é isso que nós queremos mostrar, que indígena não vive só nas aldeias, como naquela visão bem colonial, bem eurocêntrica, a nossa proposta é trazer esse indígena para um lugar de fala”.

    A exposição “Bancos indígenas do Brasil – Grafismos” é uma iniciativa da CBMM, Secretária de Estado de Cultura (SECULT), Coleção Bei e Bei Editora. A exposição segue aberta ao público na galeria do Museu do Estado do Pará. Um evento imperdível para todos que apreciam a rica cultura que forma o Brasil.

    Serviço

    Exposição: “Bancos indígenas do Brasil – grafismos”

    Período: de 15/03 a 30/07

    Horário: Terça à domingo, das 9h às 17h.

    Local: Galeria Antônio Parreiras do Museu do Estado do Pará (Praça Dom Pedro II, s/n – Cidade Velha)

    Entrada Franca

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    Bárbara Selvate TN Brasil TV
    Bárbara Selvate
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    Pesquisadora, escritora, comunicadora e graduanda em História pela UFPa. Pesquisa temas como gênero, casamento e família no período da Belle Époque Amazônica. Amante dos clássicos da literatura, sobretudo das narrativas de Walcyr Monteiro. Paraense, natural de Ananindeua. Em sua coluna Bárbara abordará temas relacionados a história e a cultura de Belém, Ananindeua e a Amazônia com um toque do sobrenatural e encantarias presente no imaginário paraense.

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