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    A normalização do assédio no trabalho: Uma vergonhosa realidade que insiste em persistir

    Bárbara SelvateBárbara Selvate26 de outubro de 2024 Colunista Bárbara Selvate
    A normalização do assédio no trabalho: Uma vergonhosa realidade que insiste em persistir
    A responsabilidade pelo assédio recai sobre a vítima em um sistema que ainda protege os abusadores e perpetua a cultura do silêncio / Foto: Reprodução
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    A responsabilidade pelo assédio recai sobre a vítima em um sistema que ainda protege os abusadores e perpetua a cultura do silêncio, enquanto mais de 52% das mulheres economicamente ativas já enfrentaram esse tipo de violência.

    Parem de culpabilizar as mulheres, a vítima! Dizer isso deveria soar óbvio, mas, quando mais da metade das mulheres ativas economicamente já enfrentaram assédio sexual no trabalho — mais de 52%, segundo a Organização Internacional do Trabalho — o que vemos, na prática, é outra história. Em vez de apoio, essas mulheres são rotineiramente responsabilizadas pelo assédio que sofreram, como se o problema fosse o comportamento, a roupa, a postura da mulher. Essa é a triste realidade que ainda define muitos ambientes de trabalho, onde, em vez de proteção, as vítimas sofrem represálias, olhares acusatórios e até ameaças de perder o emprego.

    É realmente assustador perceber como, em pleno século XXI, o assédio moral e sexual ainda seja uma constante em ambientes de trabalho. Como mulher, fico perplexa e revoltada ao ver números que expõem um sistema estruturalmente machista e adoecido. Falamos sobre essas questões no “Dia Internacional da Mulher” ou quando um escândalo toma grandes proporções, mas a realidade permanece: nossa sociedade ainda valida, silencia e perpetua comportamentos abusivos, considerando o corpo e a vida da mulher como objetos sob o poder e a prerrogativa masculina.

    A Justiça do Trabalho, entre 2020 e 2023, julgou 419.342 ações de assédio, sendo quase 23 mil de assédio sexual. Números que, por si só, revelam uma cultura de violência e abuso normalizados. E o mais alarmante: a maior parte dessas denúncias é feita por mulheres jovens, com idades entre 18 e 39 anos. Mulheres que estão começando suas carreiras, tentando se firmar no mercado e que, ao invés de terem oportunidades para se desenvolverem, são vistas como alvos de uma mentalidade patriarcal que transforma locais de trabalho em armadilhas de poder e subjugação.

    A lei é clara: a dignidade, a honra e a intimidade são direitos invioláveis. O artigo 5º da nossa Constituição assegura que ninguém deve ser submetido a tratamento desumano ou degradante, e que cabe indenização pelos danos causados. No entanto, o medo de denunciar permanece paralisante para muitas vítimas. E com razão. Nossa cultura corporativa, marcada pela hierarquia rígida, favorece esse silêncio. Quando o assédio parte de um superior, o medo de represálias e até de perder o emprego é uma ameaça constante. E quando vem de um subordinado, a inversão de poder deixa a mulher, mais uma vez, como refém.

    Precisamos transformar o trabalho em um lugar seguro para todas nós. O crescimento de 44,8% nos casos de assédio sexual é um alerta de que as iniciativas de prevenção e acolhimento das denúncias ainda são insuficientes. A conduta abusiva, seja moral ou sexual, não pode passar despercebida. Tolerar um ambiente de trabalho que naturaliza essas violências é ser cúmplice do machismo e da opressão.

    Chega dessa cultura que culpa a vítima e dá margem para que o assediador continue abusando do seu poder! As vítimas não deveriam ter que silenciar por medo de represálias, muito menos de perder seu sustento. A mulher que denuncia assédio é uma mulher que se vê, muitas vezes, ainda mais isolada, questionada e perseguida no próprio ambiente onde deveria encontrar segurança e respeito. Esse ciclo de violência institucionalizada, que desampara e silencia, precisa acabar.

    Meu apelo é para que enxerguemos essas mulheres, para que ouçamos suas vozes com o respeito e a seriedade que merecem. Um sistema onde o assédio ainda é rotina está falido. Somente quando desafiarmos essa estrutura patriarcal, quando exigirmos respeito e dignidade em todos os espaços, é que daremos o passo necessário para transformar nossa sociedade.

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    Bárbara Selvate TN Brasil TV
    Bárbara Selvate
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    Pesquisadora, escritora, comunicadora e graduanda em História pela UFPa. Pesquisa temas como gênero, casamento e família no período da Belle Époque Amazônica. Amante dos clássicos da literatura, sobretudo das narrativas de Walcyr Monteiro. Paraense, natural de Ananindeua. Em sua coluna Bárbara abordará temas relacionados a história e a cultura de Belém, Ananindeua e a Amazônia com um toque do sobrenatural e encantarias presente no imaginário paraense.

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