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    No Brasil, direita espanhola leva sua batalha para a América Latina

    Taciano CassimiroTaciano Cassimiro27 de abril de 2025 MUNDO
    No Brasil, direita espanhola leva sua batalha para a América Latina
    Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita espanhol Vox, no Congresso Brasil Profundo, nesta sexta. Evento foi promovido por Eduardo Bolsonaro / Reprodução
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    Texto: Elsa García de BlasMiguel González | El País | No Brasil |

    A batalha pela hegemonia da direita espanhola é travada também fora das fronteiras do país europeu. O conservador Partido Popular (PP), principal oposição ao Governo socialista de Pedro Sánchez, e o de ultradireita Vox abriram uma disputa pelo ponto de referência europeu desta ideologia da América Latina, continente que está submetido a um acelerado processo de polarização política no qual os partidos moderados estão sendo varridos pela ascensão de candidatos populistas.

    O presidente do Vox, Santiago Abascal, embarcou de surpresa para o Brasil na sexta-feira para participar em Várzea Grande (MT) do Congresso Brasil Profundo, do Instituto Conservador-Liberal, criado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que também esteve presente no evento. A presença de Abascal seria uma forma de se contrapor à atual viagem pela região do líder do PP, Pablo Casado.

    Na Europa, o líder do Vox explora alianças com partidos ultraconservadores, enquanto o PP trata de impulsionar o bloco de centro-direita após a perda de influência com a saída de Angela Merkel da chancelaria alemã. A política externa de Casado e Abascal revela uma fissura ideológica entre as duas formações, que, no entanto, estão fadadas a se entenderem se os conservadores somarem maioria nas próximas eleições gerais, com a tendência antieuropeísta do Vox como principal ponto de choque.

    Para que não paire nenhuma dúvida de que a viagem de Abascal ao Brasil tinha como objetivo puxar o tapete de Casado, o comunicado do Vox sobre o assunto incluía declarações do seu dirigente acusando o chefe do PP de querer “chegar a acordos, formar um Governo na Espanha com os sócios do Fórum de São Paulo e do Grupo de Puebla, com os quais se sentam à mesa de terroristas e narco ditadores”. Referia-se, com esta frase venenosa, à afirmação de Casado de que estaria disposto a formar um Governo de coalizão com o Partido Socialista dos Trabalhadores da Espanha (PSOE), desde que sem a figura do atual primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, caso vença as próximas eleições. O Fórum de São Paulo e o Grupo de Puebla são espaços de encontro da esquerda latino-americana e espanhola. O primeiro se refere a partidos, enquanto o segundo, a personalidades. Deles participam desde forças sociais-democratas até a comunistas, e figuras como o ex-premiê espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.

    O Vox pinta essas duas entidades com tintas monstruosas e estabeleceu uma aliança anticomunista para frear o suposto avanço do totalitarismo de esquerda no continente. Seu estandarte é a Carta de Madri, um manifesto em defesa da democracia liberal, que poderia ser assinado pelo PP se não tivesse sido patrocinado pelo rival Vox. Já foi respaldado por 150 dirigentes internacionais e mais de 10.000 pessoas.

    Paralelamente, Casado lançou sua própria iniciativa em termos similares, a Aliança pela Liberdade na Iberoamérica, para defender “a democracia, o Estado de direito, a economia de mercado, o Estado do bem-estar e a segurança”. Abascal convidou o PP a assinar a carta, mas os populares rejeitaram o convite. “O PP tem décadas de história na Iberoamérica, não somos recém-chegados, e tem suas próprias iniciativas, que apresenta de modo sério e formal aos presidentes”, contrapõe Pablo Hispán, porta-voz-adjunto de Relações Exteriores do PP no Congresso, que acompanha Casado em sua excursão latino-americana.

    O líder do PP busca na América Latina uma projeção internacional frente ao Vox. Na Argentina, primeira etapa de sua viagem, Casado se reuniu com os setores moderados da oposição, como o ex-presidente Mauricio Macri e o prefeito de Buenos Aires, Horacio Larreta, e depois teve encontros com os presidentes do Chile, Sebastián Piñera, do Uruguai, Luis Lacalle Pou, e do Paraguai, Mario Abdo Benítez. Casado excluiu da sua viagem o Brasil de Bolsonaro, de quem fez questão de mostrar distância numa entrevista ao jornal argentino La Nación. “Acredito que nossa aliança política para o Brasil seja uma aliança mais moderada”, disse. Em 1º de dezembro, o líder do PP se manifestava contra os populismos em uma conversa com a premiada jornalista Anne Applebaum: “A vacina contra os populismos é não se disfarçarde populistas”, dizia.

    Casado busca assim dar impulso aos partidos de centro-direita da região, mas, independentemente de reflexões gerais, passa ao largo da confrontação com os populismos de extrema direita latino-americanos. No Chile, evitou se pronunciar sobre o segundo turno entre o ultradireitista José Antonio Kast e o esquerdista Gabriel Boric. Seu assessor Pablo Hispán defende que o líder do PP não quer cometer “ingerências em questões internas”. Kast é um claro aliado de Abascal, que estende sua rede de influências na região ao economista anarco-liberal argentino Javier Milei, que obteve 17% dos votos em Buenos Aires nas eleições legislativas do mês passado, e à peruana Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, que perdeu a eleição presidencial para o esquerdista Pedro Castillo. Até o ex-presidente colombiano Andrés Pastrana, presidente da Internacional Democrata de Centro (IDC), que tem Casado como vice-presidente, participou de atos organizados pelo Vox, para surpresa e desgosto do PP.

    O líder popular também deixou clara sua distância com o Vox na sua passagem por Santiago, citando os exemplos de suas visões diferentes acerca das atribuições dos governos regionais espanhóis e do projeto europeu, mas admitiu que a formação de Abascal não “cruzou a linha” como, no seu entender, fizeram “outros partidos de direita populista”.

    O problema para o PP é que o Partido Republicano dos Estados Unidos, com Donald Trump, e Brasil com Bolsonaro giraram para posições de extrema-direita. O grande choque ideológico de 2022 serão as eleições presidenciais brasileiras de outubro, nas quais a direita democrática demonstra pouca força. Entretanto, os populares defendem que o ímpeto da direita populista na América Latina é “absolutamente marginal”, segundo Hispán, já que “eles só têm o Governo do Brasil”. Algo parecido, argumenta, ocorre na Europa, o outro campo de batalha de alianças entre PP e Vox. “O PP europeu é a primeira força no Parlamento Europeu, tem a presidência da Comissão Europeia e é um dos partidos fundadores, enquanto o que vemos é que há forças antieuropeístas que são marginais. Polônia e Hungria são os únicos países que eles governam. Suas políticas não vão determinar o futuro da União”, diz Hispán.

    Mas a saída de Merkel da chancelaria alemã, agora ocupada pelo social-democrata Olaf Scholz, reduz a influência dos conservadores tradicionais europeus, que estão na oposição nos principais países da UE. O principal Governo conservador é o grego de Kyriakos Mitsotakis, que Casado transformou em sua referência europeia justamente pela falta de primeiros-ministros relevantes na sua família política. “O PP espanhol é um dos mais importantes depois da saída de Merkel, porque na Itália e na França eles estão em baixa, e na Espanha pelo menos são o principal partido da oposição. A Europa de Merkel tem muito prestígio na Espanha; é uma carta que Casado quer jogar, enquanto Abascal se escorou na direita eurocética”, analisa Ignacio Molina, professor de Ciências Política da Universidade Autônoma de Madri e pesquisador do Real Instituto Elcano.

    Vox tem adotado posições mais identitárias contra uma maior integração europeia. Em janeiro, Abascal reunirá na Espanha uma “cúpula de patriotas europeus”, com os primeiros-ministros ultraconservadores da Polônia e Hungria, que abriram uma crise na UE por suas políticas de viés autoritário e homofóbico e seu desafio à primazia do direito comunitário sobre o nacional. No começo de dezembro, o grupo já se encontrou em Varsóvia, com a participação também da radical francesa Marine Le Pen. “Na questão internacional, sim se vê uma fratura clara entre o PP e o Vox, que talvez possa causar problemas a Casado no futuro”, diz Molina. “O Vox vai se posicionando contra avançar em algo tão importante para a Espanha como a integração europeia”.

    Carme Colomina, pesquisadora do Centro de Relações Internacionais de Barcelona (CIDOB), percebe “uma disputa pelos espaços, mas são espaços cada vez mais confusos. As linhas entre as direitas tradicionais e as radicais são cada vez mais difusas. Na Europa se copia a agenda política e as argumentações”, defende. O próprio Casado deu sinais dessas contradições em uma viagem no começo de dezembro a Chipre, onde propôs que os Estados recorram às suas Forças Armadas para assegurar sua integridade territorial perante a pressão migratória. A proposta embarcava totalmente na ofensiva dos radicais contra a imigração, e já tinha sido formulada pelo Vox.

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    Taciano Cassimiro
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    Jornalista MTB 3190/PA, Bacharel em Teologia, Pós-Graduações: História do Brasil, Direito Político e Eleitoral, Jornalismo Político, História da América, Ciências Políticas, Relações Internacionais, Comunicação em Crises Internacionais | Pós-Graduando MBA Executivo em Gestão Estratégica de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Assessoria de Imprensa | Membro do SINJOR (Sindicato dos Jornalistas do Pará) e da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). Alagoano, de Maceió. Torcedor do CSA, Vasco da Gama e Paysandu.

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