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    Artigo: Arte de Trump não funciona em política externa

    Taciano CassimiroTaciano Cassimiro2 de abril de 2018 NOTÍCIAS
    'Nunca vou reconhecer a derrota', diz Trump pressionando Mike Pence
    © Jim Bourg/Reuters
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    Como forma de explicar alguns dos bizarros movimentos da política externa do presidente Donald Trump, muitas vezes nos dizem que ele “não é convencional” – e isso poderia ser um trunfo. É verdade que ele não segue o procedimento operacional padrão em quase nada, desde receber briefings diários de inteligência a preencher cargos no Departamento de Estado. No entanto, sua distância mais marcante em relação a presidentes anteriores é na retórica. Os presidentes americanos tendem a pesar cuidadosamente suas palavras, acreditando que devem preservar a credibilidade da principal liderança mundial.

     

    Como forma de explicar alguns dos bizarros movimentos da política externa do presidente Donald Trump, muitas vezes nos dizem que ele “não é convencional” – e isso poderia ser um trunfo. É verdade que ele não segue o procedimento operacional padrão em quase nada, desde receber briefings diários de inteligência a preencher cargos no Departamento de Estado. No entanto, sua distância mais marcante em relação a presidentes anteriores é na retórica. Os presidentes americanos tendem a pesar cuidadosamente suas palavras, acreditando que devem preservar a credibilidade da principal liderança mundial.

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    E então há Donald Trump, para quem as palavras não têm peso. Durante a campanha, ele criticou a Arábia Saudita como um país que “quer mulheres como escravas e matar gays”, apenas para fazer sua primeira viagem presidencial ao exterior justamente ao reino e abraçar calorosamente seus governantes. Ele disse que a Otan estava obsoleta e depois simplesmente afirmou o contrário. A China era um manipulador de moeda que estava “estuprando” a América, até deixar de ser.

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    A retórica frouxa e as ameaças vãs, muitas vezes, saíram pela culatra. Depois que Trump foi eleito, ele decidiu ameaçar a China, refletindo sobre reconhecer Taiwan como país. O governo chinês exigiu que ele comprovasse isso e congelou as relações com Washington. Trump teve de ligar para o presidente Xi Jinping e engolir suas palavras.

    Mas há situações em que essa “flexibilidade” pode funcionar. Na Coreia do Norte, Trump ameaçou fazer chover “fogo e fúria” no país, apenas para agora saudar uma reunião com seu líder. Os defensores de Trump dizem que esse tipo de manobra pode resultar em um acordo que escape de abordagens mais convencionais do problema.

    Todos nós devemos esperar que isso aconteça. Mas, até agora, vale a pena notar que a atmosfera circense da alternância entre ameaças e abraços de Trump obscureceu um ponto-chave: foi Trump quem fez a concessão, não Kim Jong-un. Há muito tempo, a posição americana é a de que só haveria negociações depois que a Coreia do Norte desse alguns passos concretos em direção à desnuclearização. Até recentemente, o próprio governo Trump insistiu que não recompensaria o fortalecimento nuclear com as negociações.

    Agora, há um bom argumento para ser flexível nessa questão processual. Devemos estar cientes, porém, de que, até o momento, Kim parece estar executando de forma brilhante uma estratégia inteligente. Ele embarcou em um fortalecimento acelerado, acumulando um arsenal nuclear genuíno, com mísseis que podem levar ogivas ao redor do mundo, criando tensões e até mesmo ameaçando suas relações com a China. Com o arsenal construído, ele agora está reparando as relações com Pequim, estendendo a mão à Coreia do Sul e se oferecendo para negociar com Washington.

     A capacitação de Trump aqui pode muito bem ser a sua disposição de abandonar totalmente uma posição passada e endossar uma nova. Os EUA terão de aceitar menos que sua meta há muito declarada – a desnuclearização completa – e talvez Trump seja capaz de encontrar uma maneira de vender isso.

    Concessões

    Há, no entanto, um tipo diferente de conversa difícil que é mais preocupante. O governo pressiona com força em uma questão – o comércio com a Coreia do Sul, por exemplo – e depois anuncia um acordo, alegando ter conquistado significativas concessões. Na verdade, na maioria das vezes, essas foram concessões simbólicas feitas pelos aliados para permitir que o governo mantivesse as aparências.

    A Coreia do Sul, por exemplo, concordou em aumentar o número de carros que cada fabricante de automóveis americano pode vender no país de 25 mil para 50 mil. É uma concessão fácil de fazer. Nenhuma empresa americana vendeu nem sequer 11 mil carros lá no ano passado.

    Os EUA continuam sendo uma superpotência. Seus aliados buscam maneiras de acomodar o país. O governo Trump pode continuar fazendo exigências extravagantes e obterá algumas concessões, porque ninguém quer uma ruptura aberta com os EUA. Se Trump disser que os europeus precisam fazer algumas mudanças no acordo com o Irã, eles tentarão encontrar uma maneira de fazê-lo, pois não querem que o acordo fracasse e o Ocidente caia em desordem.

     Este não é um sinal de poder, mas sim o abuso dele. Quando o governo de George W. Bush forçou uma série de países a apoiar a guerra no Iraque, isso não sinalizou a força americana – na verdade, enfraqueceu essa força. Este é um estilo que vai além da presidência. Nos últimos anos, os EUA se acostumaram a todo tipo de tratamento especial.

    Por exemplo, o Estado de Nova York usou o poder do dólar como moeda de reserva do mundo para forçar os bancos estrangeiros a pagar multas e fechar acordos. Funciona, mas cria um enorme ressentimento e leva países como a China a procurar maneiras de trabalhar fora do sistema, pois acreditam que o existente concede muita liberdade aos EUA.

    O país constituiu sua credibilidade e capital político no último século. O governo Trump está atacando esse fundo fiduciário para obter vantagens políticas de curto prazo, de uma forma que o exaurirá permanentemente. / Tradução de Claudia Bozzo

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    Fonte: Estadão

     

     

    americanos arabia saudita CHINA política externa trump
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    Taciano Cassimiro
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    Jornalista (MTE 3190/PA) e bacharel em Teologia. Possui pós-graduações em História do Brasil, Direito Político e Eleitoral, Jornalismo Político, História da América, Ciência Política, Relações Internacionais e Comunicação em Crises Internacionais, além de um MBA Executivo em Gestão Estratégica de Publicidade e Propaganda. Atualmente, é pós-graduando em Relações Públicas e Assessoria de Imprensa. É membro do Sindicato dos Jornalistas do Pará (SINJOR) e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Alagoano de Maceió, adota o Pará como lar e divide sua paixão pelo futebol entre o CSA, Vasco da Gama e Paysandu.

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