Editorial – Em 19 de março de 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade clamava por um golpe contra o presidente João Goulart, e os militares atenderam. O fato até hoje é instrumentalizado pela extrema-direita para tentar justificar a ditadura militar, sob o argumento de que a sociedade o havia pedido. O mesmo roteiro tentou se repetir em 8 de janeiro de 2023; dessa vez, contudo, o Exército Brasileiro não aderiu ao pleito golpista dos bolsonaristas.
É preciso lembrar que grande parte da imprensa brasileira apoiou o golpe e o regime de 1964, até perceber que havia caído em uma armadilha. Décadas depois, a partir das manifestações de junho de 2013, o consórcio midiático refez o coro contra a esquerda, em particular, contra o Partido dos Trabalhadores. Na sequência, testemunhou-se o golpe político contra Dilma Rousseff disfarçado de impeachment, abrindo caminho para que Michel Temer assumisse o poder mesmo cercado de graves acusações.
Veio a Operação Lava Jato. A Rede Globo e os procuradores de Curitiba firmaram uma simbiose explícita que incluía vazamentos seletivos, coberturas sensacionalistas e episódios emblemáticos como o controverso PowerPoint. O resultado prático dessa engrenagem foi não apenas a ascensão da extrema-direita, mas a sua chegada ao poder central com Jair Bolsonaro. O bolsonarismo mergulhou o país em uma onda reacionária, violenta e negacionista, marcada pelo desrespeito às instituições democráticas, o ataque à ciência e a instrumentalização política dos templos religiosos, principalmente evangélicos. Dividiu famílias e culminou na tentativa de golpe de Estado.
A grande mídia, que inicialmente pavimentou a estrada para a consolidação desse extremismo, passou a boicotar o bolsonarismo ao constatar que, mais uma vez, colhia os frutos da própria armadilha. Agora, com um governo popular reconduzido ao poder, o jornalismo corporativo não abdica de sua postura histórica e atua nitidamente para minar uma gestão que busca reparar desigualdades e promover justiça social.
Os métodos permanecem: recentemente, a GloboNews elaborou um novo PowerPoint na tentativa de vincular o presidente Lula ao Caso Masters, sendo obrigada a se desculpar horas depois — dias antes do vazamento que apontou o pedido de 134 milhões de reais de Flávio Bolsonaro a Vorcaro. A história demonstra que o jornalismo hegemônico no Brasil é elitista, salvaguarda os interesses dos poderosos e, na primeira oportunidade, embarca no apoio a falsos “salvadores da pátria” de DNA assumidamente autoritário e golpista.
