Santarém, Pará – O que deveria ser apenas um corredor para o escoamento da soja brasileira tornou-se o epicentro de uma crise sem precedentes que coloca o Governo Federal, gigantes do agronegócio e povos originários em rota de colisão. A disputa pela dragagem do Rio Tapajós não é apenas uma questão técnica de navegabilidade; é um embate pela sobrevivência de um território e pela saúde de quem nele habita.

O Gigante Azul: Entre a Espiritualidade e a Logística
O Rio Tapajós, que nasce no Mato Grosso e serpenteia até o Pará, é uma das artérias mais vitais do chamado Arco Norte, sendo responsável pelo escoamento de quase 40% da produção de grãos do Brasil . Para o mercado, o rio é uma “vocação logística”, essencial para levar soja e milho rumo à Europa e à China.
No entanto, para os povos tradicionais que vivem às suas margens, o Tapajós é muito mais que um canal de transporte. É uma força, um território sagrado e a fonte de sustento por meio da pesca artesanal. Além da sua importância cultural, o rio abriga praias conhecidas mundialmente, atraindo turistas de todo o globo.
O Estopim da Crise: Privatização e Mercúrio
O clima de tensão escalou após a publicação do Decreto 12.600, em agosto de 2025, que autoriza a concessão de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins à iniciativa privada.
A ocupação do terminal da Cargill em Santarém e o bloqueio do acesso ao aeroporto local por cerca de 700 a 1.000 manifestantes são a resposta direta a um edital de R$ 74,8 milhões para dragagem de manutenção. Especialistas e médicos alertam que a dragagem pode revolver sedimentos contaminados com mercúrio proveniente do garimpo ilegal. Esse metal pesado, uma vez remexido, entra na cadeia alimentar através dos peixes, atingindo o sistema nervoso humano e causando doenças graves.
Embora o governo tenha anunciado a suspensão temporária do pregão e a criação de um Grupo de Trabalho para diálogo, as lideranças indígenas afirmam que só deixarão a ocupação quando o decreto de privatização for revogado.
““Querido e gentil leitor”: A Minha Voz, a Nossa Responsabilidade
Agora, permitam-me sair da terceira pessoa.
Esta voz que questiona não é distante, não é observadora neutra. É minha.
Sou eu quem escreve. Sou eu quem sente o peso desse silêncio coletivo.
Vejo diariamente imagens das praias do Tapajós sendo compartilhadas com filtros solares e legendas orgulhosas sobre ser amazônida. Vejo campanhas, marcas, discursos apaixonados sobre pertencimento. Mas, diante de uma ameaça concreta ao nosso rio, muitas dessas vozes se recolhem.
É muito fácil bater no peito e afirmar identidade regional. Difícil é abrir a mesma câmera que se usa para exaltar a paisagem e utilizá-la para defendê-la quando ela mais precisa.
Não escrevo movida por ódio, mas por responsabilidade. Pertencer à Amazônia não é apenas contemplar sua beleza é assumir o custo de defendê-la. É entender que o Tapajós não é um ativo logístico; é organismo vivo. Não é rota comercial; é fonte de vida.
Lutar pelo Tapajós não é uma escolha ideológica. É uma obrigação moral. Porque quando se envenena um rio, não se atinge apenas uma comunidade, atinge-se um sistema inteiro. O equilíbrio do planeta passa pela saúde da Amazônia. E a saúde da Amazônia passa, inevitavelmente, pelo destino desse gigante azul.
