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    O silêncio que Navega: Violência doméstica contra mulheres beirinhas na Amazônia e os desafios do acesso à Justiça.

    Elen Monick BarrosElen Monick Barros7 de maio de 2026 JUSPARÁ
    O silêncio que Navega: Violência doméstica contra mulheres beirinhas na Amazônia e os desafios do acesso à Justiça.
    Diariamente, treze mulheres são assassinadas no país, demonstrando que o feminicídio continua sendo uma tragédia evitável, mas negligenciada em regiões historicamente invisibilizadas pelo poder público / Foto: Reprodução
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    Enquanto os índices gerais de violência no Brasil apresentam redução, a realidade das mulheres permanece marcada pelo risco constante, especialmente na região Norte do país. O Atlas da Violência 2025 aponta uma estagnação preocupante na taxa de letalidade feminina, mantida em 3,5 por 100 mil habitantes. Em estados como Amazonas e Roraima, os números superam a média nacional, revelando um cenário alarmante de violência estrutural e persistente. Diariamente, treze mulheres são assassinadas no país, demonstrando que o feminicídio continua sendo uma tragédia evitável, mas negligenciada em regiões historicamente invisibilizadas pelo poder público.

    Na Amazônia, a violência doméstica assume contornos ainda mais severos diante das barreiras geográficas e da ausência estatal. Em pesquisa desenvolvida para Trabalho de Conclusão de Curso, o fenômeno foi denominado de “muro de águas”, expressão que simboliza os obstáculos fluviais, logísticos e tecnológicos que isolam. Para registrar uma denúncia, muitas vítimas precisam percorrer horas e em alguns casos dias de viagem pelos rios amazônicos, enfrentando custos financeiros, insegurança e a ausência de transporte regular.

    Esse isolamento é agravado pela exclusão digital e pela precariedade institucional dos pequenos municípios amazônicos. Embora cidades com menos de 50 mil habitantes concentrem algumas das maiores taxas de feminicídio do país, apenas 5% possuem Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. A virtualização do Judiciário também não alcança comunidades de várzea, onde o acesso à internet é limitado ou inexistente, impedindo medidas básicas de proteção e acompanhamento processual. Sem apoio estatal efetivo, muitas mulheres permanecem submetidas ao convívio diário com seus agressores.

    Os dados revelam a gravidade dessa desassistência: 86,9% das vítimas de feminicídio não possuíam medida protetiva de urgência no momento do crime. Em grande parte dos casos, o agressor é o companheiro ou ex-companheiro, motivado por sentimentos de posse e controle. A ausência de políticas públicas eficazes transforma o silêncio e o isolamento em fatores que perpetuam a violência dentro das próprias residências, local onde ocorre mais de 80% das agressões domésticas registradas no país.

    A situação torna-se ainda mais preocupante diante da escassez de dados oficiais sobre o interior amazônico, o que mascara a verdadeira dimensão da violência sofrida por mulheres negras, ribeirinhas e periféricas. Em muitas comunidades, a agressão ainda é naturalizada pela falta de informação, pela dependência econômica e pelo desconhecimento dos próprios direitos. Romper o “muro de águas” significa não apenas ampliar o acesso físico à justiça, mas reconhecer que a proteção das mulheres amazônicas exige políticas públicas pensadas para a realidade da floresta e de seus territórios.

    Amazônia Delegacias Justiça Violênçia doméstica
    Elen Monick Barros
    Elen Monick Barros
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    Acadêmica de Direito do 9º semestre, da Unama Santarém e desenvolve estudo voltado à realidade das comunidades ribeirinhas da Amazônia. Sua escrita busca aproximar o debate jurídico do cotidiano da população, dando visibilidade às desigualdades enfrentadas por quem vive distante dos centros urbanos e das instituições do Estado.

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