O naufrágio do Barco Sobral Santos, ocorrido em 1981, no porto de Óbidos (PA), deixou centenas de mortos e marcas permanentes na memória de famílias amazônicas.
Por Estella Paiva Nunes
Na madrugada de 19 de setembro de 1981, o barco Sobral Santos afundou em frente ao porto da cidade de Óbidos, no Pará. A embarcação havia saído de Santarém com destino a Manaus, transportando grande número de passageiros e carga.
Entre os que estavam a bordo encontrava-se Francisco Nunes, sua esposa Maria Francisca, e suas filhas, Chirley e Cheila, familiares da autora dessa reportagem . Todos sobreviveram, mas carregaram para o resto da vida as marcas físicas e emocionais daquele dia.
Por volta das três horas da madrugada, a embarcação virou de forma repentina. Não houve tempo para reação. Passageiros foram lançados à água; muitos ficaram presos em redes ou feridos por caixas, garrafas, botijas de gás e vasilhames que se soltaram no momento do acidente. O desespero tomou conta de todos. A família conseguiu sobreviver, apesar dos ferimentos e do desespero em meio ao acidente.
Após o naufrágio, os corpos começaram a surgir nas águas do rio e foram levados para um galpão no porto de Óbidos. Muitos foram enterrados em valas coletivas, sem identificação. Francisco se lembra de ter ido ao galpão e encontrado o local tomado por cadáveres, inclusive de crianças.
Segundo os relatos, a polícia não estava ajudando após o naufrágio. Pelo contrário, estava retirando os pertences das pessoas e furando os cadáveres para que os corpos não subissem.
A cidade de Óbidos prestou ajuda aos sobreviventes, oferecendo roupas, redes e alimentos. Ainda assim, o trauma permaneceu. Francisco nunca mais conseguiu viajar na embarcação, que mais tarde passou a operar com outro nome. O som das músicas noturnas, segundo relatos populares, seria uma forma de afastar os mortos que ali ficaram.
Hoje, Francisco, sua esposa e suas filhas já faleceram. Restam as memórias transmitidas aos descendentes, que transformam a dor em narrativa e o silêncio em denúncia. Revisitar o naufrágio do Sobral Santos é reconhecer uma tragédia marcada por negligência, violência e apagamento, mas também por resistência, sobrevivência e memória. Lembrar é um ato de justiça.
