Anunciei na ponta da maré,
anunciei na ponta da maré.
Meu pai me chama, eu respondo: quem é?
Sou boto branco,
sou homem, não sou mulher.
Os versos acima integram o repertório das chamadas “doutrinas” da encantaria cabocla amazônica, cantos rituais entoados em contextos de pajelança, nos quais os encantados anunciam sua presença e identidade. O ato de anunciar-se “na ponta da maré” não constitui mero recurso poético, mas remete a um gesto regulado, situado no tempo e no espaço corretos. A maré, nesse universo cosmológico, marca o limiar entre o fundo do rio e a terra firme, entre o mundo dos encantados e o mundo dos humanos.
Porém, na doutrina encantada, o boto não transgride. Ele cumpre regras, respeita limites e responde a chamados específicos. Transformá-lo em álibi social significa violentar simbolicamente a encantaria e proteger agressores humanos, deslocando a responsabilidade penal para o campo do “mito”.
Diante dessa reflexão, as memórias da encantaria são fontes profícuas para que determinadas interpretações equivocadas deixem de ser usadas para proteger abusos, principalmente de gênero. É preciso compreender o boto, não como uma entidade embusteira, malandra, enganadora, peculiaridades criadas pelas heranças deixadas pelo colonialismo europeu e, principalmente, por costumes e leis, desde os contextos do direito consuetudinário.
O boto encantado do fundo do rio não pode, portanto, continuar sendo usado para justificar injustiças, machistas, marcada, muita das vezes por extrema violências, físicas, morais, psicológicas, misóginas
Pedi, ninguém me deu.
Pedi leite, isso me negaram.
Eu canto a primeira doutrina,
meu povo do boto branco malhado.
Por Estella Paiva Nunes e Arcângelo da Silva Ferreira
