A insurgência que mobilizou o Exército brasileiro no sertão da Bahia expôs as fraturas de um país recém-republicano e transformou Belo Monte em palco de uma das maiores tragédias da história nacional.
A Gênese de Belo Monte: Miséria, Fé e Messianismo
Para compreender a formação de Canudos, é preciso recuar à segunda metade do século XIX. O sertão nordestino vivia sob o peso da seca devastadora, da opressão do latifúndio e do desamparo estatal decorrente da transição do Império para a República (proclamada em 15 de novembro de 1889).
Nesse cenário de marginalização social, surge a figura de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro (13 de março de 1830 – 22 de setembro de 1897). Peregrinando pelo sertão baiano a partir de 1871, Conselheiro atraiu milhares de fiéis com pregações religiosas, obras comunitárias e a promessa de salvação espiritual e justiça social.
Em 1893, fugindo da perseguição de autoridades policiais e eclesiásticas, Conselheiro e seus seguidores fixaram-se às margens do Rio Vaza-Barris, em uma antiga fazenda abandonada. Ali fundaram o arraial de Belo Monte (popularmente conhecido como Canudos).
O Modo de Vida e a Ideologia de Canudos
Entre 1893 e 1897, o arraial vivenciou um crescimento populacional vertiginoso, alcançando cerca de 25 mil a 30 mil habitantes e tornando-se a segunda maior concentração urbana da Bahia na época, atrás apenas de Salvador.
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Organização Comunitária: O modo de vida em Canudos baseava-se na posse comunitária da terra, na partilha do trabalho agrícola, no comércio local e na ausência de impostos estatais.
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Ideologia e Fé: A comunidade guiava-se por um catolicismo popular e milenarista. Conselheiro contestava o casamento civil, a laicização do Estado e a cobrança de impostos imposta pelo novo regime republicano, o que levou a República a rotular o movimento, de forma distorcida, como uma rebelião monarquista armada.
Lideranças do Conflito: O Arraial contra as Forças Oficiais
O confronto colocou frente a frente lideranças populares sertanejas e os altos comandantes do Exército Brasileiro.
Lideranças de Canudos:
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Antônio Conselheiro: Líder espiritual e político da comunidade (falecido em 22 de setembro de 1897, antes da queda final).
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João Abade (“Lorde”): Comandante militar da guarda de Conselheiro e organizador da defesa do arraial.
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Pajeú: Tático e chefe de guerrilha sertaneja, especialista em emboscadas na caatinga.
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Antônio Vilanova: Comerciante e uma das principais lideranças civis e logísticas de Belo Monte.
Lideranças do Exército e Forças Oficiais:
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Tenente Manuel da Silva Pires Ferreira: Comandou a 1ª Expedição (novembro de 1896).
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Major Febrônio de Brito: Comandou a 2ª Expedição (janeiro de 1897).
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Coronel Antônio Moreira César: Conhecido como “Corta-Cabeças”, comandou a 3ª Expedição e foi morto em combate (3 de março de 1897).
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General Arthur Oscar de Andrade Guimarães: Comandante-em-chefe da 4ª Expedição (junho a outubro de 1897).
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General Guilherme Xavier de Gaudin: Comandante de uma das brigadas da 4ª Expedição.
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Marechal Carlos Machado de Bittencourt: Ministro da Guerra, que assumiu pessoalmente a operação na Bahia a partir de agosto de 1897 para garantir a vitória final.
Os Presidentes da República e a Reação do Estado
A Reação do Estado brasileiro desdobrou-se ao longo dos mandatos de dois presidentes da República no período da chamada “República da Espada” e da “República Oligárquica”:
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Prudente de Morais (15 de novembro de 1894 – 15 de novembro de 1898): Primeiro presidente civil do Brasil, foi sob sua gestão que o conflito escalou. Pressionado por elites políticas e militares jacobinas que viam em Canudos uma ameaça à ordem republicana, Prudente de Morais autorizou o envio sucessivo das forças federais e o emprego massivo do Exército.
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Marechal Floriano Peixoto (13 de novembro de 1891 – 15 de novembro de 1894): Embora seu mandato tenha encerrado antes dos combates diretos, a ideologia florianista e o ambiente de repressão aos focos monarquistas influenciaram a truculência do Estado contra a comunidade de Conselheiro.
As Quatro Expedições Militares:
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1ª Expedição (novembro de 1896): Partiu de Juazeiro e foi derrotada em Uauá em 21 de novembro de 1896.
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2ª Expedição (janeiro de 1897): Comandada pelo Major Febrônio de Brito, foi rechaçada na Serra do Cambaio em janeiro de 1897.
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3ª Expedição (fevereiro a março de 1897): Comandada pelo Coronel Moreira César, sofreu humilhante derrota em 4 de março de 1897, resultando na morte do comandante e na debandada das tropas.
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4ª Expedição (junho a outubro de 1897): Mobilizou mais de 12 mil soldados de diversos estados, culminando no cerco e na destruição total do arraial em 5 de outubro de 1897.
A Cobertura da Imprensa e a Visão do País
A cobertura jornalística do conflito representou um marco no jornalismo brasileiro. Jornais de Salvador e do Rio de Janeiro (então capital federal), como O Paiz, Gazeta de Notícias e Diário de Notícias, cobriram os desdobramentos da guerra.
O principal nome dessa cobertura foi Euclides da Cunha (20 de janeiro de 1866 – 15 de agosto de 1909), enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. Euclides acompanhou a 4ª Expedição a partir de agosto de 1897. Inicialmente partidário da ação oficial contra o suposto “fanatismo monarquista”, o jornalista testemunhou o massacre de civis e a resistência heroica do sertanejo, experiência que deu origem ao clássico da literatura e da historiografia brasileira, Os Sertões, publicado em 1902.
Reação do País e do Mundo Após o Conflito
O término da Guerra de Canudos, marcado pela degola sistemática de prisioneiros e pelo incêndio das casas do arraial em outubro de 1897, provocou reações profundas:
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No Brasil: O pânico do “perigo monarquista” deu lugar ao constrangimento e ao horror diante da truculência empregada pelas Forças Armadas. Em 5 de novembro de 1897, durante a recepção das tropas vitoriosas no Rio de Janeiro, o presidente Prudente de Morais sofreu um atentado promovido pelo marujo Marcelino Bispo, resultando no assassinato do Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado de Bittencourt.
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No Mundo: Veículos da imprensa internacional, como o jornal francês Le Figaro e o britânico The Times, registraram o conflito. A tragédia expôs no exterior a instabilidade política da jovem República brasileira e as acentuadas disparidades sociais e regionais do país.
Canudos permanece, até os dias atuais, como um símbolo indelével da resistência popular sertaneja e um lembrete histórico das consequências do abandono social e do autoritarismo estatal.
Referências Bibliográficas
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CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de Canudos. Edição crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 2001 [1902].
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GALVÃO, Walnice Nogueira. No Calor da Hora: a guerra de Canudos nos jornais (4ª expedição). São Paulo: Ática, 1974.
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LEVINE, Robert M. O Sertão Prometido: o massacre de Canudos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1995.
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MEINEL, Ciro. Canudos: a guerra do fim do mundo na imprensa do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005.
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SILVA, José Calasans Brandão da. No Tempo de Antônio Conselheiro. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1959.
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VENTURA, Roberto. Euclides da Cunha: esboço biográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

