Uma reflexão sobre quando o Direito organiza o tempo, mas protege a infância.
No próximo domingo, milhões de brasileiros vão vestir a camisa da Seleção, reunir a família diante da televisão e torcer por mais um jogo da Copa do Mundo. Para muitas crianças, será um dia de festa, pipoca, gritos de gol e lembranças que permanecerão por muitos anos. Mas, em muitas famílias, antes mesmo de a bola rolar, outra partida já começou: com quem os filhos vão assistir ao jogo do Brasil?
Coincidentemente, a partida acontece em pleno período de férias escolares, época em que muitos conflitos sobre convivência reaparecem. É justamente nesse momento que uma crença bastante difundida costuma ganhar força: a de que guarda compartilhada significa dividir as férias exatamente pela metade. Mas não é assim. A guarda compartilhada não diz respeito à divisão matemática do tempo. Ela representa o compartilhamento das responsabilidades e das decisões mais importantes sobre a vida dos filhos. O período de convivência deve ser construído de acordo com a realidade de cada família, sempre orientado pelo princípio do melhor interesse da criança.
Também não existe uma regra legal determinando que as férias escolares precisem ser divididas igualmente entre os pais. Sempre que possível, diálogo e planejamento continuam sendo os melhores caminhos. Organizar ainda no início do ano um calendário de convivência, contemplando férias, feriados, aniversários e datas comemorativas, costuma evitar desgastes justamente nos momentos que deveriam ser dedicados ao descanso e à construção de boas memórias. Quando esse consenso não é possível, cabe ao Judiciário definir a forma de convivência mais adequada às necessidades daquela criança e às particularidades daquela família.
Quando o árbitro encerrar a partida, o placar ficará registrado na história da Copa. Mas existe um resultado que nunca aparecerá em nenhuma estatística: a lembrança que aquela criança levará daquele domingo. O calendário pode dividir datas. O Direito pode organizar a convivência. Mas a infância nunca será medida pelos dias que cada um passou com os filhos, e sim pelas lembranças que ajudou a construir. Porque, quando a infância entra em campo, o melhor resultado nunca deveria ser a vitória de um dos pais. Deveria ser a felicidade dos filhos.

