Uma reflexão sobre os limites da educação, a proteção da infância e as marcas que a violência pode deixar.
Um vídeo gravado por uma câmera de segurança chocou o país nesta semana. Nele, um pai agride a própria filha, de apenas três anos, com um chute. As imagens provocaram indignação imediata e pedidos de punição. Mas, depois do choque, talvez permaneça uma pergunta que merece ser feita com calma: agredir educa?
Durante muito tempo, frases como “apanhei e não morri”, “foi para o meu bem” ou “uma palmada educa” fizeram parte da forma como muitas famílias compreendiam a criação dos filhos. Elas atravessaram gerações e, para muita gente, ainda parecem justificar o uso da violência como instrumento de correção. Mas será que sobreviver a uma prática significa que ela estava certa?
Educar exige limites. Mas limites não se confundem com violência. Corrigir faz parte da parentalidade. Humilhar, ferir ou agredir, não. Quanto maior a responsabilidade de um adulto sobre uma criança, maior também deve ser o compromisso de protegê-la. Foi justamente para reafirmar esse compromisso que o Brasil passou a reconhecer, de forma expressa, por meio da chamada Lei Menino Bernardo, o direito de crianças e adolescentes serem educados sem castigos físicos ou tratamentos cruéis ou degradantes. Mais do que criar uma regra, essa lei simboliza uma mudança de perspectiva: autoridade e cuidado caminham juntos; violência e educação, não.
Talvez muitas pessoas realmente tenham apanhado e sobrevivido. Mas isso não significa que tenham saído ilesas. Algumas marcas não aparecem na pele. Permanecem na forma como enxergamos o afeto, os limites e até a maneira como educamos nossos próprios filhos. As primeiras mãos que uma criança conhece são, quase sempre, as de quem deveria protegê-la. Talvez seja justamente por isso que a maior responsabilidade da parentalidade não seja ensinar pelo medo, mas mostrar, pelo exemplo, que autoridade e violência nunca precisaram caminhar juntas. Porque a infância guarda marcas por muito tempo. E as mãos que educam jamais deveriam ser lembradas pela agressão, mas pelo cuidado.

