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    A revolução íntima do reformador protestante Martinho Lutero

    Taciano CassimiroTaciano Cassimiro1 de março de 2020 PORTAL DA HISTÓRIA
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    A revolução íntima do reformador protestante Martinho Lutero
    Foto: Reprodução Facebook
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    Biografia vasculha a vida e as motivações que levaram um pregador rebelde a alterar a história do cristianismo e a romper com o controle da religião sobre a vida cotidiana no mundo ocidental

    O monge retraído e corpulento de 33 anos talvez não imaginasse que desencadearia a ruptura da cristandade quando afixou uma grande folha impressa em latim com caracteres tipográficos minúsculos à porta da igreja do castelo de Wittenberg, Saxônia, norte da Alemanha, em 31 de outubro de 1517. Com suas Noventa e Cinco Teses, Martinho Lutero, ou Martin Luder (1483-1546), converteu uma lista de proposições numeradas em um dos mais poderosos movimentos sociais da história.

    O texto que inaugurou a Reforma Protestante foi impresso e divulgado por um obscuro professor de teologia de uma universidade sem prestígio, situada em uma cidade pobre, suja e enlameada. Lutero se lamentava de que Wittenberg ficava tão distante da civilização que “um pouco mais e estaria em terra bárbara”.

    CENÁRIO Vista de Wittenberg em 1536: a cidade em que Lutero atuou contava com o Castelo do Eleitor (à esq.) e com a igreja e suas torres gêmeas (Crédito:Divulgação)

    Talvez não medisse as consequências do gesto. Os relatos do momento foram mencionados pelo estudante Philip Melâncton e pelo secretário de Lutero, Georg Rörer. Ambos afirmam que o monge pregou o texto de forma teatral, armado de um martelo. Mas nem um, nem outro se encontrava na cidade naquele dia. Há quem creia que as teses foram simplesmente coladas à porta do templo.

    O fato é que a Reforma e a fratura irremediável da unidade da Igreja Católica foram ocasionadas por um único texto, que não pretendia pregar verdades, e sim formular suposições a serem verificadas em discussões acadêmicas posteriores. A primeira tese dizia: “Quando nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo disse ‘penitenciai-vos’, ele queria que toda a vida do fiel fosse de arrependimento”.

    Com essa proposição, Lutero desejava restaurar a pureza dos sacramentos católicos, a começar pela graça do perdão obtida com a contrição sincera da parte do fiel. Foi assim que, naquele mesmo dia, encaminhou as teses ao o arcebispo Albrecht de Mainz, a autoridade eclesiástica máxima da Alemanha, acompanhadas por uma carta em que pedia providências do prelado em relação a seu rebanho. Albrecht reagiu violentamente ao tom do monge e mandou puni-lo, dando início ao processo que resultou na excomunhão do “herege”, devido a sua reinterpretação da penitência.

    Sem purgatório

    O motivo do confronto entre arcebispo e monge revelou-se prático: por trás daquela pletora de ideias mais ou menos encadeadas, Lutero atingia o cerne do sistema de indulgências, que movia o Vaticano desde a Idade Média. O reformador Lutero escolhera por alvo o frei dominicano Johannes Tetzel, da vizinha cidade de Jüterbog, conhecido por organizar um lucrativo esquema de indulgências na região. Seu lema era: “Quando a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório vai se livrar”.

    PAIS Hans e Anna Luder por Lucas Cranach, o Velho, (1527): mãe exerceu influência religiosa em Martinha
    A raiva de Lutero extravasou quando Tetzel pregou em um sermão que suas indulgências se mostravam tão eficazes que, mesmo que o pecador tenha estuprado a Virgem Maria, teria garantida a absolvição no purgatório, mediante o pagamento do perdão, que poderia ser facilitado em suaves prestações. O sistema ajudava a manter as atividades da igreja e, naquele ano, especificamente, patrocinava a construção da Catedral de São Pedro em Roma. Albrecht devia dinheiro ao papa, e estava pessoalmente empenhado em arrecadar o máximo com a venda de perdões.

    A história é conhecida. O “escândalo das indulgências” se espalhou, Lutero arrebanhou milhões de leitores em todos os reinos germânicos e em seguida na Europa, e se tornou famoso da noite para o dia. Banido pela igreja, refugiou-se no forte de Wartburg, em Eisenach, na Turíngia, cidade de seus parentes maternos. Lá, perseguido por atiradores, escondido em um cubículo, teria lutado dia e noite com o Demônio, golpeando-o com a tinta de sua pena, enquanto traduzia a Bíblia Vulgata em latim para o alemão, com o objetivo de utilizar o texto liturgicamente. Foi o início do cisma que tanto divide o cristianismo há quinhentos anos como também marcou a consolidação da língua alemã moderna como veículo de conhecimento preciso.

    O que não se sabia era a motivação íntima de Lutero. Com base na psicanálise e em revisão de fontes primárias, a historiadora australiana Lyndal Roper propõe uma reflexão inédita sobre a influência da personalidade de Lutero e como ela foi determinante para a instauração do protestantismo no livro “Martinho Lutero: renegado e profeta”, publicado originalmente em 2016 e agora lançado pelo selo Objetiva da Companhia das Letras. Seu propósito foi mostrar como um indivíduo do século XVI enxergava o mundo e por que o via assim. Também investigou sua personalidade para compreender suas ideias sobre carne e espírito, em uma época em que não havia separação entre mente e corpo.

    Demônio em tudo

    Lutero, segundo Roper, ostentava uma personalidade polêmica, teatral e contraditória. Sabia ser rude e até brutal com os inimigos, embora piedoso com os seguidores e intenso com os amigos. Melâncton achava que “seu caráter era quase a prova máxima de sua doutrina”. Disposto a brigar por suas convicções, possuía o dom de repercutir tudo o que fazia e dizia, nem sempre de forma piedosa. Achava que “o lugar das mulheres era em casa, por causa de suas ancas largas” e acreditava que os judeus haviam assassinado Cristo.

    “É difícil lidar com sua inquietante obsessão pelo Demônio, o virulento antissemitismo e o gosto pela polêmica rude e grosseira”, diz Lyndal Roper. “Mas de sua personalidade brotou uma nova fé.” Apesar de seu conservadorismo, preconizou o sexo antes do casamento e o prazer carnal para homens e mulheres indistintamente.

    Para Roper, é possível entender melhor a teologia do Reformador Lutero, se for analisada à luz de seus conflitos psicológicos, presentes em textos, de cartas a sermões. “A Reforma de Lutero rompeu a unidade da Igreja Católica e deu início à secularização no Ocidente”, afirma. O paradoxo mais fascinante, repousa na diferença entre as intenções do teólogo e os resultados práticos de sua ação na história. “A herança teológica de Lutero consiste numa concepção de natureza humana que escapava à separação entre carne e espírito que perseguiu uma enorme parte da história do cristianismo, gerando profunda desconfiança da sexualidade. Não com Lutero: ele podia ser tudo, mas desmancha-prazeres não era”, diz. “Considerava a sexualidade pecaminosa, mas apenas na medida em que todas as nossas ações são pecaminosas, e essa perspectiva lhe permitiu adotar uma abordagem positiva do corpo e da experiência física.”

    Como Lutero difundiu sua crença

    O monge Martin Luder ganhou fama atacando as indulgências da Igreja Católica. Seu primeiro seguidor foi o teólogo Andreas Karlstadt (1486-1541), detrator dos votos monásticos (no alto à eq.,. 1541-42). Ele formou o grupo de Reformadores (no alto à dir.). Acima à esq., é retratado em 1520 com auréola e pomba do Espírito Santo. Casou-se em 1525 com a freira Katharina von Bora (pintura de Cranach, o Velho, c. 1529)

    As controvérsias da época

    Lutero se encarregou de realizar uma tradução acessível da Bíblia, para ser usada na liturgia, e protagonizou violentas polêmicas teológicas. Abaixo à esq., gravura representa de Lucas Cranach, o Velho, intitulada “As origens do Anticristo”. Apresenta o papa morto, cercado por demônios, tentam ressuscitá-lo. À dir., panfleto de 1525 caricaturiza Lutero firmando o pacto com o Demônio, em trajes de camponês

    Fonte: ISTO É
    alemanha LUTERO Reforma Protestante REFORMADOR
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    Taciano Cassimiro
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    Taciano Cassimiro é jornalista profissional (MTE 3190/PA), bacharel em Teologia e licenciado em História. Possui pós-graduações em História do Brasil, Direito Político e Eleitoral, Jornalismo Político, História da América, Ciências Políticas, Relações Internacionais e Comunicação em Crises Internacionais, além de um MBA Executivo em Gestão Estratégica de Publicidade e Propaganda. Atualmente, especializa-se em Relações Públicas e Assessoria de Imprensa. Filiado ao Sindicato dos Jornalistas do Pará (SINJOR) e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), é natural de Maceió (AL) e adotou o Pará como lar. Fora do jornalismo e da análise política, divide sua paixão pelo futebol entre o CSA, o Vasco da Gama e o Paysandu.

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