Da Revolução de 1930 ao Estado Novo de 1937, o general alagoano consolidou a intervenção militar na política nacional como estrategista de rupturas institucionais e tutelador do Estado.
A história republicana do Brasil é pontuada por rupturas institucionais, e poucas figuras encarnam de forma tão visceral a simbiose entre a caserna e a política quanto o General Pedro Aurélio de Góis Monteiro (12 de dezembro de 1889 – 26 de setembro de 1956). Natural de São Luís do Quitunde (AL), Góis Monteiro notabilizou-se não apenas como um brilhante estratega militar, mas como o grande artífice e pensador das intervenções armadas que reconfiguraram o mapa político brasileiro nas décadas de 1930 e 1940.
A Ruptura de 1930: O Batismo Político-Militar
A projeção nacional de Góis Monteiro começou a desenhar-se com a Revolução de 1930, movimento armado que depôs o presidente Washington Luís, encerrou a República Oligárquica e alçou Getúlio Vargas ao poder. Embora cético quanto a certas correntes políticas da época, Góis Monteiro aceitou assumir o comando estratégico das tropas rebeldes na Região Sul.
O sucesso nas operações credenciou-o a ocupar posições de máxima influência no Governo Provisório (1930–1934), momento em que passou a defender abertamente que a estabilidade do país dependia de uma tutela firme do Exército sobre as instituições civis. Anos mais tarde, em 28 de março de 1968, o reflexo dessa doutrina continuaria a influenciar a história nacional com episódios dramáticos como a morte do estudante Edson Luís, demonstrando o peso da repressão de Estado.
O Cerco de 1932: Defesa da Ordem Centralizada
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, eclodida em 9 de julho de 1932 em São Paulo, Góis Monteiro atuou como o comandante-chefe das forças leais ao governo federal. Coube a ele desenhar e executar o cerco militar que sufocou o levante paulista, culminando na rendição de São Paulo em 2 de outubro de 1932. Pelo êxito na manobra que garantiu a unidade sob o comando central de Vargas, foi promovido a General de Divisão em 6 de outubro de 1932.
O Golpe de 1937 e o Estado Novo: A Obra-Prima do Autoritarismo
O ápice da articulação golpista de Góis Monteiro deu-se em 10 de novembro de 1937. O Estado Novo — a ditadura que fechou o Congresso Nacional, extinguiu os partidos políticos e outorgou a Constituição de inspiração fascista conhecida como “Polaca” — teve em Góis Monteiro um dos seus principais cérebros estratégicos.
Nesse período, sob a égide do combate a supostas ameaças subversivas (como o ardiloso “Plano Cohen”), Góis Monteiro utilizou sua influência no Estado-Maior do Exército para convencer a cúpula militar de que a democracia liberal era um modelo falido e incompatível com o desenvolvimento do país. Para ele, as baionetas deveriam guiar os rumos da nação em momentos de crise aguda.
Conclusão e Legado
A atuação de Góis Monteiro consolidou o que historiadores definem como a “Doutrina Góes”: a crença de que as Forças Armadas detêm um papel moderador permanente na política brasileira. Envolvido direta ou indiretamente em todas as grandes crises e tentativas de ruptura entre 1930 e a sua morte em 16 de outubro de 1956, o general alagoano deixou um legado complexo e controverso, marcado pelo talento tático militar em detrimento da solidez democrática institucional.
