Instituição criada para “corrigir” crianças e adolescentes na Amazônia deixou marcas de violência, apagamento e memória silenciada.
Por Estella Paiva Nunes
“Eu pensei que tinham me colocado ali para a cobra me comer”, relembrou Francisco de Assis Nunes, ex-interno do Educandário Raimundo de Nogueira Faria e avô da autora desta reportagem. Ele tinha apenas poucos anos quando foi levado à instituição, localizada na Ilha de Cotijuba, em Belém do Pará, destinada a crianças consideradas abandonadas ou infratoras.
Durante grande parte do século XX, a pobreza infantil foi tratada como problema social e caso de polícia. Crianças recolhidas das ruas de Belém eram enviadas ao educandário sob o discurso da disciplina e da educação moral. Na prática, relatos de ex-internos apontam para castigos físicos, fome e desaparecimentos silenciados pelos registros oficiais.
Implantado em um contexto de forte controle social, intensificado durante a ditadura civil-militar, o educandário funcionava como espaço de isolamento e punição. Hoje, em ruínas, o local é conhecido pelos moradores da ilha como espaço de encantaria onde histórias de gritos e sons vindos do antigo prédio circulam como expressão de uma memória coletiva marcada pelo trauma.
A história do Educandário Raimundo de Nogueira Faria evidencia um período em que crianças e adolescentes foram tratadas como problema social e não como sujeitos de direitos. Somente com a Constituição Federal de 1988, que passou a assegurar prioridade absoluta à proteção da infância, e com o Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990, o Estado brasileiro reconheceu o dever de garantir dignidade, respeito e proteção integral a crianças e adolescentes. Revisitar esse passado é, portanto, um exercício de responsabilidade histórica: lembrar para que tais violações não se repitam e para afirmar que memória também é direito.