“O índio chorou, o branco chorou, todo mundo está chorando. A Amazônia está queimando.”
Os versos da toada Lamento de Raça, do Boi-Bumbá Garantido, parecem traduzir a realidade que insiste em se repetir diante dos nossos olhos. A floresta queima, os animais fogem, a fumaça toma conta do horizonte e comunidades inteiras convivem com as consequências de uma crise ambiental que ameaça o presente e o futuro da região.
No Pará, essa preocupação ganha contornos ainda mais próximos quando olhamos para Alter do Chão, em Santarém. Conhecida por suas praias de água doce, pela beleza do Rio Tapajós e por sua riqueza natural, a região representa muito mais do que um destino turístico é território de memória, cultura, biodiversidade e pertencimento.
O incêndio registrado recentemente em Alter do Chão acende novamente um alerta sobre a vulnerabilidade dos nossos ecossistemas, especialmente durante os períodos de estiagem. Mesmo quando as chamas são controladas, os impactos permanecem vegetação destruída, animais ameaçados, habitats comprometidos e prejuízos para as comunidades que dependem diretamente da natureza.
Quando a floresta queima, não são apenas árvores que desaparecem. Perdem-se histórias, referências culturais, conhecimentos tradicionais e modos de vida construídos ao longo de gerações. Para os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, a floresta não é simplesmente um recurso natural é território, identidade e sobrevivência.
A toada do Garantido traduz essa dimensão quando anuncia a fuga da saracura, da onça-pintada e dos demais animais diante do fogo. A música transforma a arte em denúncia e nos lembra que a destruição ambiental também representa o desaparecimento de vidas que não podem ser recuperadas.
Não podemos naturalizar a fumaça, o cheiro de queimado e a destruição da floresta como acontecimentos inevitáveis da realidade amazônica. É necessário fortalecer a fiscalização, investir na prevenção, estruturar as brigadas e responsabilizar quem provoca incêndios criminosos. A preservação não pode ser lembrada apenas quando a tragédia acontece.
Alter do Chão precisa continuar sendo território de vida, e não mais uma lembrança de uma paisagem consumida pelo fogo. A Amazônia não precisa de homenagens depois da destruição. Precisa de políticas públicas, compromisso coletivo e proteção enquanto ainda há tempo.
Que o choro cantado pelo Garantido não seja apenas uma expressão artística, mas um chamado à consciência. Afinal, se a Amazônia está queimando, todos nós precisamos compreender que também estamos perdendo uma parte da nossa própria história.
Matar a mata não é permitido. E preservar a Amazônia não é uma escolha é uma responsabilidade coletiva.

