O que mais me chama atenção nas eleições de 2026 não é a existência de divergências políticas. Divergir faz parte da democracia. O que preocupa é a forma como determinados discursos têm sido construídos e reproduzidos simplificando problemas complexos, distorcendo conceitos e, em alguns casos, transformando o outro em alguém que precisa ser desumanizado.
Em uma sociedade democrática, podemos defender projetos diferentes de país. Podemos discordar de governos, partidos, políticas públicas e decisões econômicas. Mas existe uma diferença importante entre discordância política e a relativização da realidade.
Um exemplo disso é o debate sobre o feminicídio. Ainda é possível ouvir discursos que questionam a própria existência desse fenômeno, apesar de ele estar previsto na legislação brasileira e de os registros oficiais demonstrarem que mulheres continuam sendo assassinadas em razão de sua condição de mulher. Negar a existência do problema não contribui para enfrentá-lo apenas desloca o debate da realidade para uma disputa ideológica.
O mesmo acontece quando falamos em meritocracia. O problema está em imaginar que todos começam a corrida do mesmo ponto, com as mesmas condições, oportunidades e possibilidades. A sociedade brasileira é marcada por desigualdades econômicas, sociais, raciais e regionais construídas historicamente. Ignorar esse ponto de partida é transformar uma questão estrutural em uma responsabilidade exclusivamente individual.
É justamente nesse contexto que precisam ser compreendidas políticas como as cotas, o Bolsa Família e outras políticas de inclusão e proteção social. Muitas dessas iniciativas não começaram necessariamente no período político atual. Elas fazem parte de processos históricos e foram, ao longo dos anos, ampliadas, reformuladas e fortalecidas por diferentes governos.
Por isso, o debate não deveria ser simplesmente sobre quem criou determinada política, mas sobre o que ela produz na vida das pessoas, quem ela alcança e como pode ser aperfeiçoada. Defender a retirada ou a redução de políticas sociais sem discutir seus impactos concretos não pode ser apresentado como uma solução simples ou inevitável.
O acesso a uma política pública não anula o esforço, em determinados momentos, ajuda a tornar possível a continuidade de uma trajetória.
Quando se fala em mudanças nas relações de trabalho, redução de custos, flexibilização, reformas econômicas ou alterações na Previdência Social, muitas vezes o trabalhador aparece apenas como uma categoria abstrata. Mas existe uma pessoa por trás desse conceito alguém que acorda cedo, enfrenta transporte público, trabalha durante horas, recebe muitas vezes um salário que mal cobre suas despesas e depende daquela renda para sustentar a própria família.
Então precisamos perguntar esse trabalhador, que está todos os dias na ponta, será realmente beneficiado por esses discursos e por essas mudanças?
E quando o debate chega à Previdência Social, a pergunta precisa ser ainda mais cuidadosa. Previdência não diz respeito apenas à aposentadoria de quem já envelheceu. Ela envolve proteção diante de situações que podem atingir qualquer trabalhador ao longo da vida incapacidade para o trabalho, doença, acidente, maternidade, morte de um segurado e a necessidade de garantir alguma proteção à família.
Para quem tem renda alta, patrimônio, investimentos e possibilidade de construir uma proteção financeira própria, determinadas mudanças podem parecer administráveis. Mas para quem passou décadas trabalhando, contribuindo e vivendo com o próprio salário, a Previdência pode representar a diferença entre envelhecer com alguma segurança ou enfrentar a velhice em situação de extrema vulnerabilidade.
O mesmo vale para o trabalhador que sofre um acidente, adoece ou perde sua capacidade laboral. É fácil defender mudanças olhando apenas para números. Mais difícil é imaginar como aquela decisão será sentida por uma família que depende de um benefício para pagar aluguel, alimentação, remédios e outras necessidades básicas.
Trata-se de lembrar que reformas não são apenas números, gráficos e discursos econômicos. Elas produzem consequências concretas na vida das pessoas.
Também é importante reconhecer que a trajetória de nenhum partido político é perfeita ou governo ou grupo político. A crítica faz parte da democracia. Não há necessidade de transformar a defesa de políticas sociais em defesa irrestrita de um partido. É possível reconhecer avanços, apontar erros, cobrar responsabilidades e, ainda assim, compreender a importância histórica de determinadas políticas.
Talvez o que esteja faltando ao debate político brasileiro seja justamente aquilo que parece mais básico consciência de classe, memória histórica e interpretação de texto.
Consciência de classe para compreender que pessoas diferentes vivem realidades diferentes e que determinadas decisões políticas não produzem os mesmos efeitos para todos.
Memória histórica para lembrar que direitos não surgiram espontaneamente e que muitas conquistas sociais foram resultado de mobilização, organização e disputas ao longo de décadas.
E interpretação de texto para compreender aquilo que realmente está sendo dito, distinguir proposta de propaganda e não transformar uma frase retirada de contexto em verdade absoluta.
A política não precisa ser um espaço de unanimidade. Ela existe, inclusive, porque somos diferentes. O problema começa quando a diferença deixa de ser motivo para o diálogo e passa a ser justificativa para o ódio, a intolerância ou a desumanização.
Antes de compartilhar um discurso, defender uma proposta ou atacar quem pensa diferente, talvez devêssemos fazer perguntas simples o que está sendo proposto? Qual é o contexto? De onde vem essa informação? Quem será beneficiado? Quem poderá ser prejudicado? E, sobretudo, qual sociedade estamos ajudando a construir quando defendemos determinada ideia?
As eleições passam. Governos mudam. Partidos mudam. Discursos também.
Mas as consequências das escolhas políticas permanecem na vida das pessoas.
Por isso, mais do que escolher um lado, precisamos preservar a capacidade de pensar. Podemos discordar, votar diferente e defender projetos distintos de país. O que não deveríamos perder nesse processo é a humanidade, o senso crítico, a memória e a responsabilidade sobre aquilo que ajudamos a colocar em circulação.
Porque democracia não exige que pensemos igual.
Exige que sejamos capazes de pensar.

