Há perguntas que precisam ser feitas mesmo quando as respostas incomodam. Quantas mulheres ainda precisam morrer para que a violência deixe de ser tratada como uma sucessão de casos isolados? Quantas denúncias precisam ser ignoradas, quantos pedidos de socorro precisam permanecer nas entrelinhas, até que compreendamos que estamos diante de uma estrutura que insiste em se repetir?
Em Santarém, assim como em tantas outras cidades brasileiras, os casos de feminicídio não podem ser vistos apenas como acontecimentos individuais. Cada morte carrega uma história anterior ameaças que talvez tenham sido naturalizadas, relacionamentos marcados pelo controle, silêncios familiares, omissões institucionais e uma sociedade que, muitas vezes, só reage quando a violência chega ao seu extremo.
Historicamente, a violência contra a mulher não surgiu de forma repentina. Durante séculos, mulheres foram submetidas a estruturas jurídicas, sociais e familiares que restringiam sua autonomia e reforçavam a ideia de que determinados espaços, decisões e direitos pertenciam aos homens. No Brasil, a conquista da cidadania feminina foi gradual e acompanhada por mudanças profundas na legislação e na própria compreensão social sobre o lugar da mulher.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres como princípio fundamental. Posteriormente, a Lei Maria da Penha representou uma mudança decisiva ao reconhecer que a violência doméstica e familiar não é um problema privado, mas uma violação de direitos humanos que exige prevenção, proteção e responsabilização. A criação do feminicídio como qualificadora do homicídio também trouxe ao Direito a necessidade de reconhecer que determinadas mortes de mulheres estão relacionadas à própria condição de gênero.
Mas a existência da lei, por si só, não encerra a violência.
É justamente nesse ponto que precisamos questionar os silêncios e as entrelinhas. O que acontece antes de uma mulher ser assassinada? Quais sinais foram percebidos, mas não considerados graves? Quantas vezes o ciúme foi chamado de amor, o controle de cuidado, a ameaça de discussão de casal e a agressão de “problema de família”? Talvez seja necessário olhar para além da mobilização que acontece depois da tragédia. Precisamos fortalecer aquilo que acontece antes dela.
Campanhas de conscientização são indispensáveis, mas não podem ser o único caminho. É preciso pensar em educação para prevenção da violência desde cedo, capacitação permanente dos profissionais que recebem denúncias, fortalecimento da rede de proteção, acompanhamento efetivo das medidas protetivas e políticas públicas que considerem as particularidades da realidade amazônica. É preciso também criar espaços onde mulheres possam falar antes que o silêncio se transforme em sentença.
E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis: estamos realmente ouvindo as mulheres ou apenas aprendemos a lamentar suas mortes? Questionar é também uma forma de prevenção. Olhar para as entrelinhas é reconhecer que a violência raramente começa no momento em que a vida é retirada. Muitas vezes, ela começa muito antes em uma ameaça, em uma humilhação, em um isolamento, em um controle disfarçado de afeto.
Quando uma mulher é vítima de feminicídio, não deveríamos perguntar apenas quem a matou.
Precisamos perguntar também quais mecanismos falharam antes que aquela morte acontecesse. Porque nenhuma sociedade pode se considerar verdadeiramente consciente enquanto suas mulheres continuam precisando morrer para que sejam ouvidas. A luta contra o feminicídio não pode terminar no minuto de silêncio. Precisamos transformar o silêncio em escuta, a indignação em prevenção e o Direito em instrumento efetivo de proteção.

