De Joaquim Barbosa a André Mendonça, a crônica de uma Suprema Corte arrastada pelo populismo judicial e a lógica das torcidas.
O ciclo dos heróis e vilões na Suprema Corte
O Supremo Tribunal Federal (STF) já esteve sob alvo direto de ofensivas extremistas que pregavam seu fechamento via intervenção militar. Antes, contudo, a própria Corte viu emergir figuras incensadas pela opinião pública, a exemplo do ex-ministro Joaquim Barbosa — que, no auge do julgamento do Mensalão (Ação Penal 470), foi ovacionado a ponto de ter seu nome cotado para a Presidência da República, provocando inclusive reações de preocupação da OAB diante de suas frequentes ofensas direcionadas aos advogados na tribuna. No mesmo ecossistema, a Operação Lava Jato projetou a figura de Sergio Moro — que, embora não tenha integrado o STF, arrastou o tribunal para o centro de uma ruidosa controvérsia jurídica em razão dos métodos e do conluio acusatório. Tido como “salvador da pátria”, Moro virou ministro de Estado, elegeu-se senador e, no giro da engrenagem política, acabou etiquetado como traidor por antigos aliados.
A pêndula da espetacularização: de Moraes a André Mendonça
A esteira institucional não parou de girar. Em 2018, Alexandre de Moraes votou contra o habeas corpus do atual presidente Lula. Anos mais tarde, respaldado pelo plenário da Corte, transformou-se no principal anteparo judicial contra as tramas golpistas, determinando prisões e atingindo altas patentes militares. O resultado foi a personificação do julgamento: Moraes virou, simultaneamente, figura amada e odiada, alimentando coros que o aclamavam para a vida pública.
Mais recentemente, a dinâmica se renova com o ministro André Mendonça, indicado na gestão Bolsonaro. O magistrado imergiu a Corte em nova turbulência, agora sob contornos de narrativa messiânica — marcada por agradecimentos a “irmãos em Cristo”, retórica maniqueísta do “bem contra o mal” e a chancela explícita dada por Michelle Bolsonaro ao batizá-lo como o “ungido do Senhor”.
Contradições jurídicas e as blindagens seletivas
Nesse cenário, movimentos processuais conduzidos por Mendonça expuseram fragilidades e tensionaram a atuação de nomes como Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, enquanto Dias Toffoli tenta reconfigurar sua permanência no debate. Em contrapartida, episódios graves — como a ligação do senador Flávio Bolsonaro tratando de cifras milionárias — acabaram à margem das prioridades do gabinete de Mendonça.
A crise se aprofundou quando revelações apontaram contratos que somam mais de R$ 10 milhões firmados por órgãos públicos, com dispensa ou inexigibilidade de licitação, com o Instituto Iter, entidade fundada pelo próprio ministro. Contudo, na lógica da polarização, o carimbo de novo “salvador” já havia sido concedido tarde demais para reflexões ponderadas.
A sociedade dividida e o espetáculo midiático
O ecossistema jurídico e político reage com bordões automáticos: “rasgaram a Constituição” ou “exigimos investigação imediata”. A imprensa cumpre seu papel de noticiar com fervor, mas, ao acelerar a apuração, muitas vezes atropela a presunção de inocência — transferindo inteiramente para o próprio acusado o ônus de tentar recolher as penas e recompor sua biografia. A sociedade, por sua vez, é arrastada para uma postura de torcida organizada, onde a razão dá lugar a uma paixão cega, de viés personalista e partidário, que se sobrepõe tanto ao campo eleitoral quanto ao rigor jurídico. O critério da lei é esquecido: o foco deveria ser a punição imparcial de quem comete ilícitos, independentemente de se tratar de Barbosa, Moro, Toffoli, Moraes, Gonet ou Mendonça.
O veredito das vaidades em ano eleitoral
Em última análise, a batalha travada no âmbito do Supremo Tribunal Federal expõe as vísceras da vaidade, do hipermidiatismo e da politização da toga. Em anos eleitorais, a Suprema Corte volta a capturar os holofotes, enquanto parte de seus membros, intencionalmente ou não, passa a atuar como verdadeiro cabo eleitoral do xadrez político nacional.
