O Benefício de Prestação Continuada (BPC), garantido pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), é essencial para muitas pessoas com deficiência, incluindo pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), e idosos em situação de vulnerabilidade. Mas uma dúvida comum — e muitas vezes mal compreendida — é: posso acumular o BPC com outro benefício previdenciário?
A resposta não é tão simples quanto um “sim” ou “não”, e o desconhecimento sobre o tema pode levar famílias a perderem o benefício ou deixarem de acessar direitos importantes por medo ou desinformação. Neste artigo, vamos explicar, de forma clara, quando é proibido acumular benefícios, quais são as exceções, e como planejar legalmente o recebimento de mais de um benefício.
BPC/Loas Não é Aposentadoria – E Isso Faz Toda a Diferença
Antes de tudo, é importante entender: o BPC/Loas não é um benefício previdenciário, e sim assistencial. Ele não exige contribuição ao INSS e é pago para:
- Idosos a partir de 65 anos em situação de baixa renda;
- Pessoas com deficiência, de qualquer idade, que comprovem impedimentos de longo prazo e vulnerabilidade socioeconômica (renda per capita familiar inferior a 1/4 do salário mínimo).
Por esse motivo, o BPC não dá direito ao 13º salário, não gera pensão por morte e, segundo a legislação atual, não pode ser acumulado com outro benefício no CPF do titular — com raras exceções que precisam ser analisadas com cuidado.
O Que a Lei Proíbe e o Que Ela Permite?
- O que NÃO pode ser acumulado com o BPC/Loas:
- Aposentadoria (por idade, invalidez ou tempo de contribuição);
- Auxílio-doença;
- Auxílio-acidente;
- Pensão por morte;
Qualquer outro benefício previdenciário do INSS ou de regime próprio no nome do titular do BPC.
Ou seja, se o titular do BPC começar a receber qualquer um desses benefícios, o BPC será cortado automaticamente, mesmo que ainda haja necessidade financeira.
O que PODE ser acumulado com o BPC/Loas:
- Benefícios previdenciários recebidos por outros membros da família, desde que respeitado o limite de renda per capita;
- Auxílios eventuais, cestas básicas, programas de transferência de renda, como o Bolsa Família;
- Isenções tributárias, como IPTU ou IPI na compra de veículos;
- Remuneração de aprendiz com deficiência, até certos limites legais.
Exemplo Prático: O Caso de Pais com Filho Autista
Imagine uma família em que o pai é aposentado por idade e o filho é diagnosticado com autismo severo, necessitando de cuidados permanentes. A dúvida é: o filho pode receber o BPC enquanto o pai recebe aposentadoria?
Sim. O fato de um membro da família receber aposentadoria não impede que outro receba o BPC, desde que a renda total da família dividida pelo número de pessoas (renda per capita) não ultrapasse 1/4 do salário mínimo.
Nesse cenário, o que importa não é a acumulação no CPF do pai, mas a renda da família como um todo e quem é o titular de cada benefício. Portanto, um bom planejamento familiar e patrimonial pode permitir o recebimento legal e simultâneo de diferentes benefícios.
O Que Fazer em Caso de Cancelamento Indevido?
Infelizmente, muitos benefícios são suspensos automaticamente quando há alguma inconsistência no CadÚnico ou quando o sistema detecta a existência de outro benefício ativo. Se você ou alguém da sua família teve o BPC cancelado e acredita que a suspensão foi injusta, siga estas orientações:
- Verifique a razão oficial da suspensão no site ou app Meu INSS;
- Atualize o Cadastro Único (CadÚnico) no CRAS do seu município;
- Junte toda a documentação necessária que comprove a renda, o vínculo familiar e a deficiência;
- Entre com um recurso administrativo no INSS ou procure orientação jurídica para reaver o benefício por via judicial.
Um advogado especializado pode reverter situações de corte indevido e orientar sobre como manter os benefícios sem riscos legais.
Conclusão: Informação Correta é a Chave Para Proteger os Direitos da Família
Muitas famílias deixam de buscar o BPC ou outros benefícios por medo de “perder a aposentadoria” ou por não saber que é possível, sim, planejar o recebimento legal de mais de um benefício dentro da mesma casa.
Se você convive com uma pessoa com deficiência ou autismo e precisa de apoio financeiro, busque orientação, entenda seus direitos e mantenha o CadÚnico sempre atualizado. O benefício existe para garantir dignidade e inclusão – e quando bem orientada, a família pode e deve acessá-lo sem medo.