Há dez anos, um jingle de campanha municipal em Cocal dos Alves, cidade de pouco mais de 6 mil habitantes no interior do Piauí, foi tocado em carros de som durante uma disputa para prefeito. Em ritmo de forró e axé, a música usava um formato de pergunta e resposta para lançar acusações contra o candidato Osmar Vieira, o “Osmarzinho”, e sua família. Ele venceu a eleição mesmo assim, governou por dois mandatos e, em 2026, sem ser candidato a nada, virou o personagem mais inesperado da campanha presidencial.
O áudio ressurgiu nas redes sociais no em agosto, dez anos depois de ter sido pensado para durar o tempo de uma disputa local. Virou meme nacional, gerou ação judicial (Osmarzinho conseguiu decisão determinando a retirada do conteúdo de plataformas como Meta e TikTok) e, principalmente, virou modelo. Uma fórmula pronta: melodia contagiante, estrutura de pergunta e resposta, acusação cantada. Bastava trocar o nome.
De Cocal dos Alves ao Palácio do Planalto
Foi o que aconteceu. Apoiadores do presidente Lula publicaram uma versão do jingle contra o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, reaproveitando a estrutura original com supostoa episódios ligados a ele e à família Bolsonaro. Do outro lado, o próprio presidente e candidato à reeleição Lula não escapou: circula nas redes uma versão satírica dirigida a ele, relembrando promessas de campanha e episódios de governos petistas.
Enquanto isso, na disputa pelo governo da Bahia, jingles com apoio de inteligência artificial já vinham sendo usados contra os candidatos ACM Neto e Jerônimo Rodrigues, e ganharam depois uma adaptação também mirando Flávio Bolsonaro. A diferença entre essas peças e a de Cocal dos Alves é justamente essa: o jingle original de 2016 foi feito por gente, reproduzindo um instrumento de campanha centenário (o Brasil usa jingle político desde 1930). As novas versões nascem, em parte, de ferramentas de geração de voz e composição por IA, o que muda a régua legal.
O que pode e o que não pode
Propaganda eleitoral negativa não é, em si, proibida. Criticar adversário, contrapor fatos, questionar gestão e trajetória política faz parte do debate democrático e está dentro do que a legislação eleitoral permite. O limite está na diferença entre crítica e ofensa: quando o conteúdo deixa de discutir ideias e passa a imputar fato criminoso sem comprovação, atacar a honra ou expor a vida privada sem relação com a função pública, deixa de ser propaganda negativa legítima e passa a configurar calúnia, difamação ou injúria, com consequências que vão de direito de resposta a responsabilização judicial, como já mostrou o próprio caso “Osmarzinho”.
Quando entra inteligência artificial na equação, a régua fica ainda mais rígida. O uso de conteúdo sintético (voz clonada, imagem manipulada, vídeo gerado por IA) para atacar candidato ou criar fatos que não existem tem tratamento específico na legislação eleitoral vigente para 2026, que exige identificação clara de conteúdo produzido ou manipulado por IA e veda o uso de deepfake para prejudicar ou favorecer candidatura. A linha entre “paródia com humor” e “propaganda enganosa” pode ser tênue, e é exatamente aí que mora o risco jurídico para quem produz, replica ou até mesmo compartilha esse tipo de conteúdo sem entender a diferença.
Por que a gente compartilha isso e não compartilha o resto?
Fica uma pergunta que vale mais reflexão do que resposta fácil: por que um jingle acusatório de dez anos atrás, ou uma paródia com IA cheia de deboche, viraliza em dias, enquanto a propaganda institucional, o plano de governo, a proposta bem-intencionada mal sai da bolha de quem já concorda com ela?
Parte da resposta é humana: temos viés de atenção para o que ameaça, denuncia ou aponta um culpado, e é mais fácil prender a atenção com “quem fez isso?” do que com “veja o que eu pretendo fazer”. Parte é estrutural: o algoritmo das redes não distingue humor de fato, prova de acusação; ele amplia o que gera reação, e reação é o que esse tipo de conteúdo entrega em abundância. E parte é cultural: o jingle debochado, a música que “gruda”, tem uma tradição de décadas na política brasileira. A novidade em 2026 não é o formato, é a velocidade e a ferramenta.
Fica o alerta para quem consome: verso de jingle, por mais que viralize, não é prova de nada. E fica o alerta para quem faz campanha ou comunicação política: a linha entre criatividade e ilegalidade nunca foi tão fina, e nunca foi tão fácil de ultrapassar sem perceber.

